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Filipa Cruz: «Em termos poéticos, a minha produção é expressão, é intensidade, é visceral, é impacto do Mundo no Corpo e é pictórica.»

Filipa Cruz, natural de Viseu, veio viver para os Açores aos cinco anos e garante que toda a sua construção enquanto pessoa e artista está marcada pelo tempo, pelo clima, pela paisagem e pelos materiais dos Açores, assim como pelas pessoas, não havendo um dia em que os Açores não construam o seu imaginário, o seu desejo e o seu sentido estético.

A poesia sempre fez parte da sua vida e tem a intenção de continuar a publicar, até porque tem dois projectos em criação literária em desenvolvimento que abordam a experiência insular.

Segundo a autora, Até Os Tempos Não Mais Serem Interditos pretende reflectir sobre o que não é imediato, o que não é visível, o que está latente, o constrangimento. Este, que é o primeiro livro da artista plástica e que foi agraciado com o I Prémio Literário Letras Lavadas, será lançado no dia 4 de Abril às 17:30h na Livraria Letras Lavadas. 

Até os Tempos Não Mais Serem Interditos foi o vencedor do I Prémio Literário Letras Lavadas, concurso que contou com Álamo de Oliveira, Leonor Sam-
paio da Silva e Paula de Sousa Lima como jurados

 

1 – Foi a vencedora do Primeiro Prémio Literário Letras Lavadas, em 2020. Como teve conhecimento do concurso e porque decidiu participar?

Soube da existência do concurso quando estava de férias nos Açores. Tinha concluído há uns meses os últimos poemas do livro e andava a reflectir bastante no contexto insular. Decidi participar porque acreditava que tinha um projecto sólido e coeso com potencial poético que reunia todas as condições para ser analisado.

2 – Como reagiu à notícia de que o seu manuscrito tinha sido escolhido, por unanimidade, como o vencedor?

Quando soube que o manuscrito tinha sido escolhido fiquei muito feliz. Trata-se de um projecto que é fruto de muito trabalho e que representa o modo como abordo a poesia. Não se trata de mim enquanto autora, porque me dissolvo completamente, ao estilo de Maurice Blanchot, mas de um olhar sobre o mundo e sobre a vida que foi sendo maturado e que, finalmente, encontrou um espaço de partilha, um espaço onde deixa de me pertencer para pertencer ao Outro.

3 – Como descreveria a sua obra Até os tempos não mais serem interditos? O título tem como referência as restrições impostas pela pandemia da COVID-19?

É curiosa essa referência, pois o projecto não aborda directamente essa problemática. A minha proposta artística procura desde 2012 reflectir sobre o que não é imediato, o que não é visível, o que está latente. Por isso mesmo, o constrangimento é algo que me interessa explorar, o convite para o que não é directo. Até os tempos não mais serem interditos nasce, precisamente, deste enquadramento: uma interdição poética à espera de uma fissura no espaço. No entanto, não havendo uma única interpretação, o livro está, naturalmente, aberto ao diálogo. Esta obra poética tem a estrutura necessária para se mutar de acordo com o seu leitor, ecoando a partir do seu pano de fundo, do seu fundo experiencial. Assim, o livro pode ser perfeitamente interpretado à luz desse contexto sem, no entanto, ser dele escravo.

4 – Segundo a Professora Leonor Sampaio da Silva, um dos membros do júri do Prémio Literário Letras Lavadas e prefaciadora da obra, a sua formação em arte tem uma grande influência na sua linguagem poética, que é de «grande expressividade visual». Para além da arte o que a inspira a escrever poesia?

Sim, a minha formação e profissão estão profundamente ligadas às artes plásticas. Quando estudei nas Beaux-Arts de Paris o meu júri, que era composto por uma directora de museu de arte contemporânea, por um crítico de arte e por dois artistas, aconselhou-me a escrever. Isto porque o meu trabalho plástico explorava a palavra poética escrita e falada. Na altura até sugeriram que escrevesse um romance. Porém, foi bem mais tarde que este projecto aconteceu.

A poesia sempre fez parte da minha vida. Considero que a arte e a vida estão intimamente ligadas. Por isso, as experiências, os (des)sencontros e os contextos povoam o meu imaginário. Interesso-me pelo lado avassalador dos estímulos do Mundo no modo como impacta o Corpo, pelas distâncias e fricções dos Corpos humanos, celestes, insulares, pela infinitude do gesto anódino. Escrevo poesia porque as palavras são matéria em movimento, são o porvir, são sonhos, são vísceras e são potência que exploro como vibrações e sensação no corpo.

O modo como abordo a arte literária e a arte plástica é muito diferente. Em termos plásticos, a minha produção é limpa, organizada, numa busca pela perfeição e é do campo da tridimensionalidade. Em termos poéticos, a minha produção é expressão, é intensidade, é visceral, é impacto do Mundo no Corpo e é pictórica.

5 – Sendo natural de Viseu, de que forma os Açores entram na sua vida e como eles a inspiram na sua arte?

Apesar de ser natural de Viseu, mudei-me para os Açores aos cinco anos. Isto faz-me muito mais próxima da Região do que do Continente. Toda a minha construção enquanto pessoa e enquanto artista está marcada pelo tempo, pelo clima, pela paisagem e pelos materiais dos Açores. Algumas das pessoas que mais contribuíram para o modo de ver a vida e a arte foram, igualmente, as pessoas com quem me cruzei na Região.

Sobre o lugar dos Açores como motor para a criação, não se trata de um fascínio provisório, mas de uma imagem construída ao longo dos anos sobre o Arquipélago. Foi sem dúvida a minha formação nas Artes que me levou para fora dos Açores, mas não há um dia em que os Açores não construam o meu imaginário, o meu desejo e o meu sentido estético.

6 – Este livro é, supostamente, a sua estreia poética e foi logo agraciado com um prémio literário. Tem a intenção de continuar a publicar mais livros de poesia ou de outras modalidades literárias?

É verdade. É a minha primeira publicação, contudo, não é a minha única produção poética. Isto quer dizer que não é uma obra fruto da sorte ou pensada especificamente para um determinado fim. Desde sempre que fui escrevendo, mas o que diferencia este trabalho de outro, é o facto de ser pensado como um todo e não apontamentos dispersos. Actualmente, continuo a escrever poesia e tenho a intenção de continuar a publicar, até porque tenho dois projectos em criação literária em desenvolvimento. O tema que estou a desenvolver inscreve-se na experiência insular.

 

Entrevista elaborada por Ana Oliveira
Redactora e Gestora de conteúdos da Agenda Açores

 

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