Viola da Terra – O único instrumento musical típico dos Açores

Viola da Terra – O único instrumento musical típico dos Açores

A Viola da Terra é o único instrumento musical típico dos Açores, e dia 2 de Outubro celebra-se o Dia da Viola da Terra. Saiba mais sobre ela neste artigo Top Azores!

 

Designada por viola de arame, viola de corações ou viola da terra é o único instrumento musical típico do nosso arquipélago, que assumiu através dos séculos grande importância social e cultural na vida das gentes de todas as ilhas, para quem apresentava uma companhia indispensável nas horas de diversão e lazer. As suas características ímpares diferenciam-nas das suas congéneres continentais e madeirense.

José Alfredo Ferreira Almeida (2010). A Viola de Arame dos Açores. (2.ª ed.). Ponta Delgada: Letras Lavadas.

 

Origem da Viola dos Açores

viola da terra

Segundo Manuel Ferreira, no seu livro A Viola de Dois Corações, «não há elementos concretos sobre a data de chegada da Viola dos Açores», mas não será arriscado de supor que foram trazidos pelos Portugueses com a expansão ultramarina dos primeiros que chegaram, dispostos à fixação, com carácter definitivo, no século XV.

Segundo as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso (1522-1591), a viola tratava-se de um objeto de elevado apreço, e os seus tocadores eram dignos de nomeada e apontados a dedo, alguns com direito a registo histórico e geral admiração.

Não há registos do(s) tipo(s) de viola(s) que foram trazido(s) pelos povoadores do arquipélago açoriano, no entanto, podemos afirmar que as modificações organológicas sofridas por esta(s) viola(s) através das sucessivas gerações de construtores não foram significativas ao ponto de ocasionar uma diferença substancial entre a viola da terra e suas congéneres do continente português. O aspeto, os métodos de construção e os materiais utilizados na construção da viola da terra são basicamente os mesmos utilizados nos instrumentos semelhantes do continente português. A viola da terra apresenta semelhanças com a viola amarantina e da viola de cabo verde: além de o aspeto geral ser muito semelhante, todas elas possuem a boca em forma de dois corações é, no entanto, com a viola toeira, ou viola de Coimbra, que a viola da terra apresenta maiores familiaridades, a saber: afinação quase idêntica e doze cordas de arame agrupadas em cinco ordens, três duplas e duas triplas.

Conhecida também por “viola de arame” (por possuir cordas feitas de fio de arame e não de aço) ou “viola de dois corações” (por possuir as aberturas do tampo em forma de dois corações), a viola da terra ao chegar aos Açores, toma características comuns a todas as ilhas, mantendo os seus fundamentais traços primitivos, mas aqui e acolá foi adquirindo afinações e particularidades diferenciadas. Assim, transforma-se no mais típico instrumento musical do arquipélago dos Açores, como se afirma na dissertação de Mestrado de José Wellington Nascimento.

No entanto, só a partir do século XIX é que começaram a aparecer provas iconográficas da presença da viola de dois corações em São Miguel – e na própria literatura de viagens.

A fixação do encordoamento nas atuais 12 cordas deve ter ocorrido no fim do século XIX e por influência coimbrã (viola toeira).

Deste modo, mesmo a conhecer-se e a comprovar-se a sua origem continental, a viola de dois corações constitui hoje uma peça artesanal individualizada com identidade e traços próprios, com as suas doze cordas e som característico.

 

Os dois modelos de Viola da Terra

Considera-se existir dois tipos do popular instrumento musical açoriano: a viola de dois corações (micaelense, mas adotado pelas restantes ilhas do grupo central e ocidental) e a viola de boca redonda (Viola da Terra da Terceira).

O que motivou a diferenciação dos dois modelos de viola ainda é um mistério, pois, segundo Manuel Ferreira, minguam elementos históricos e iconográficos que possam fornecer dados concretos para uma explanação segura, salvo alguns indícios e argumentos intuitivos, sempre de difícil confirmação e em tudo dependentes do mérito e surpresas das investigações.

Mas vamos às suas distinções:

Viola da terra

Viola de Dois Corações. Foto: Centro Regional de Apoio ao Artesanato

A Viola de dois corações tem a caixa alta e estreita, com cintura pouco acentuada, abertura sonora ou boca geralmente em forma de dois corações unidos com as pontas para fora.

O braço é comprido, com escala até à boca, rasante com o tampo, do qual se distingue pela diferença das madeiras.

A escala tem 21 trastos ou pontos, dos quais 12 sobre o braço e nove sobre o tampo.

Arma com 12 cordas metálicas, dispostas em cinco ordens ou parcelas – as três primeiras duplas e as outras duas triplas.

viola da terra

A Viola da Terra da Terceira é uma viola de boca redonda. Foto: Casa da Guitarra

Já a viola de boca redonda tem dois subtipos: a viola de cinco parcelas, que arma com 12 cordas, incluindo dois ou três bordões, e a viola de seis parcelas, com 15 cordas (três parcelas de duas cordas e três parcelas de três). Ambas têm boca sonora redonda, caixa mais larga e de altura mediana, com enfranque pouco acentuado e escala até à boca, em ressalto sobre o tampo (como na viola madeirense e no violão).

Enquanto na viola de dois corações a escala tem 21 trastos (12 no braço e nove sobre o tampo), na de boca redonda varia o número de trastos e a sua distribuição: 12 sobre o braço na viola de cinco parcelas e dez na de seis parcelas, diferindo de construtor para construtor o número dos restantes trastos sobre os tampos.

Além destas, há ainda a viola de sete parcelas (18 cordas), instrumento que, pelas suas dificuldades de afinação e execução que apresenta, é pouco prática, o que explica a sua raridade.

A viola de 15 cordas, conhecida na ilha Terceira por viola de seis parcelas, com apenas dez trastos sobre o braço e sete a nove sobre o tampo, tem o braço curto, o que, conjugado com a largura da caixa de ressonância e a extensão da pá, lhe confere um aspeto atarracado, mas elegante.

Gozando de enorme popularidade, a viola de seis parcelas suplantou quase completamente a de cinco parcelas. A origem da viola de seis parcelas é matéria controversa, que tem merecido atenção dos estudiosos do assunto, segundo José Ferreira Almeida. Ora a atribuem à presença castelhana nos Açores, no século XVI e XVII, ora a uma provável influência aristocrática ‘vihuela’ quinhentista ou, bastante mais próxima no tempo, à influência do violão, do qual a viola de boca redonda teria tomado o bordão mais grave (mi) e as maiores dimensões da caixa de ressonância, aumentando assim a sua extensão e possibilidades. Ou seja, poder-se-ia considerar a viola de quinze cordas como uma forma evolutiva da viola açoriana de boca redonda.

 

A Iconografia da Viola de Dois Corações

viola da terra

Foto: Centro Regional de Apoio ao Artesanato

Como refere José Wellington do Nascimento, ao longo dos tempos desenvolve-se toda uma construção identitária açoriana vinculada à viola da terra. Esta assume, dialeticamente, dois aspetos importantes: em primeiro lugar, a utilização do corpo do instrumento como repositório de símbolos e a tradução destes símbolos de forma a afirmar a viola da terra como expressão da identidade açoriana. Os dois corações, que segundo a explicação popular
representam “o coração que parte (que emigra para o estrangeiro) e o coração que fica”; o “cordão umbilical”, que se une numa lágrima, a lágrima da saudade e que é também referida como símbolo do ás de ouro, representando a busca de fortuna na emigração e que também representam a Coroa do Espírito Santo, e por fim o cavalete com as extremidades representando o Açor, ave que terá dado o nome ao arquipélago açoriano.

 

A importância sociocultural da viola da terra

A Viola acabou por exercer a sua magia em todas as classes, e deixou de ser um privilégio para entretenimento de ricaços e privilegiados, quer fosse de arco ou de dedilhar, até cair no pé descalço e no âmago da alma popular, afirma Manuel Ferreira, passando a estar enraizada na sociedade rural. A viola era, então, largamente utilizada em rituais lúdico-religiosos, desempenhando uma função social de muita importância, ligada principalmente às práticas do camponês, raramente aparecendo só, enquanto instrumento musical, mas sempre como acompanhamento de algum ritual de religião, de trabalho ou de lazer. A viola foi utilizada como instrumento acompanhador do canto, das rezas e das danças, integrada organicamente na vida social, segundo afirma Wellington de Nascimento. Manuel Ferreira corrobora esta afirmação dizendo que não havia aldeia ou vila que não se orgulhasse dos seus construtores e tocadores, de datas aprazadas para o Entrudo e Páscoa, para as festas do Espírito Santo e do Natal, com matanças e janeiras, de porta em porta.

Folia das festas populares do Divino Espírito Santo, Ilha de São Miguel, Açores. Postal ilustrado circulado entre 1911 e 1914.

Não admira, portanto, o lugar de primazia por ela conquistado no Cancioneiro Popular Açoriano, como lenitivo e último recurso nas horas de amargura, sacudindo o espantalho da solidão e angústia.

Mais do que nos velhos romances e aravias – é na quadra espontânea e cadenciada, ora viva ora dolente entre «rasgados» e «ponteados» bem dedilhados, em milhares de versos cantados ao sabor do momento e transmitidos de geração em geração, de boca em boca e de ilha para ilha, que se descobre o mais puro manancial da alma popular.

No Cancioneiro dos Açores contam-se por centenas as quadras de referência e louvor ao apreciado instrumento, de permeio com outras de profundo lirismo, exaltando o Amor, a Mulher a Saudade.

 

 Esta pintura é uma interpretação do pintor Domingos Rebêlo, dos serões em São Miguel, na década de 1930.

 

Exemplos:

 

Viola, minha viola

Tu comes comigo à mesa;

Tu és a minha alegria,

Quando eu tenho tristeza.

 

Viola, minha viola,

Viola que eu tanto adoro:

Porque ris quando rio?

Porque choras quando choro?

 

Os dois corações abertos

Da viola, tão riquinhos,

Um é meu, o outro é teu,

Como os dela bem juntinhos.

 

O amor pela Viola e seus tocadores, e pela música em geral do povo açoriano chamou a atenção de diversos continentais, como António Campos, que afirmou, no âmbito das comemorações centenárias da Independência e da Restauração de Portugal:

O povo açoreano é altamente dotado pela música, muito mais do que para a poesia. Há nisto marcado contraste com o Continente, onde os cantadores são – em geral – mais apreciados pela veia poética do que pela arte musical. Além disso os instrumentistas populares açoreanos mostram acentuada tendência para o virtuosismo.

Deve mencionar-se que o acompanhador – o mestre da viola – tem funções muito mais importantes do que cá [Continente]. Dirige, como se disse, o baile, e é muitas vezes um surpreendente improvisador, que vai comentando, variando e engrinaldando, com prelúdios e interlúdios da sua invenção – segundo esquemas rítmicos dados – as melodias francas e livres dos cantares.

António Campos, in Livro do Primeiro Congresso Açoreano – pág. 244-245, citado em Manuel Ferreira (2010). A Viola de Dois Corações – pág. 55.

viola da terra

Mulher toca um exemplar de Viola da Terra da Terceira, na Terra Chã, em 1910. Fonte: Blog “Vila Maria” Publicado por Pedro Noronha e Luís Silveira

Apesar da sua grande importância, não havia um momento especial para o ensino, o aprendizado musical ocorria durante as práticas quotidianas, sendo por isso natural o fenómeno da imitação do outro, seja em família ou quando os tocadores se encontravam.

Antes do período em que se inicia a escolarização do instrumento (1982), de maneira geral os tocadores executavam suas músicas funcionalmente, ou seja,
ainda que tivessem um sistema complexo de representação de suas músicas, não possuíam noções teóricas do sistema musical de que faziam uso para executarem seus instrumentos.
Esses músicos sempre foram vistos como quem toca “sem saber música”, ou seja, operando um número limitado de acordes, comumente entendido como posição, sem conhecimento e domínio da teoria musical. Assim, podemos afirmar que até quase ao final do século XX o ensino da Viola da terra era efetuado apenas com base na transmissão oral, como refere Ernesto Veiga de Oliveira no seu livro Instrumentos musicais populares dos Açores, citado por Wellington do Nascimento na sua dissertação.

 

A importância da sua valorização e a proposta de estipular o dia 2 de outubro como Dia da Viola da Terra

Rafael Carvalho, músico, professor e presidente da Associação de Juventude Viola da Terra e um responsáveis pela criação do Dia da Viola da Terra. Foto: DR

“A viola da terra sobreviveu graças ao povo. Isso é importante: ela só chega aos nossos dias porque está associada às tradições populares, muito ligada antigamente às romarias. São os maiores registos que temos. As pessoas saíam em romarias para as festas e procissões e a viola ia sempre, porque animava as romarias e os arraiais”, explicou Rafael Carvalho, músico e professor do instrumento no Conservatório Regional de Ponta Delgada e presidente da Associação de de Juventude Viola da Terra, à agência Lusa.

Mas segundo o próprio, houve um período em que a viola da terra “quase desaparece, entre os anos 50 e 60, devido à emigração, à guerra colonial e ao próprio regime que não via com bons olhos ajuntamentos populares“. Daí, veio a necessidade de restaurar a sua importância na cultura popular açoriana, e várias medidas têm sido tomadas, com as primeiras aulas livres no Conservatório Regional em 1982, dar a conhecê-la às crianças e jovens através das escolas e das redes sociais, a criação da Associação de Juventude Viola da Terra e de escolas de violas e mais eventos. Outra forma seria a criação de um dia específico para a Viola da Terra.

Foi em setembro de 2018 que foi proposto o dia 2 de outubro como sendo o Dia da Viola da Terra,  mais concretamente no último dia da conferência da 3.ª edição do Festival Cordas.

O Dia da Viola da Terra foi criado na terceira edição do Festival Cordas, organizado pela MiratecArts, na ilha do Pico

 

Segundo o jornal Tribuna das Ilhas «a MiratecArts, entidade organizadora do Festival Cordas, em parceria com a Associação de Juventude Violas da Terra e o maior dinamizador da Viola da Terra, o professor e músico virtuoso Rafael Carvalho, com o apoio dos grupos Casa da Música da Candelária do Pico, Grupo de Tocadores de Violas de São Jorge e da Associação de Músicos da Ilha Branca, Graciosa, e ainda o músico dos Myrica Faya, Bruno Bettencourt, declararam que o «Dia da Viola da Terra seria a 2 de Outubro, porque o dia da música não é só um e os dois corações devem correr todas as ilhas e terras das comunidades açorianas um dia do ano em seu nome».

Através dos deputados da ilha do Pico fizeram o pedido ao parlamento regional para declararem 2 de outubro como o Dia da Viola da Terra nos Açores e nas comunidades açorianas. Infelizmente, até hoje, ainda não houve resposta oficial. Mas a cidadania avançou e comemorou em 2019, com eventos em várias ilhas, marcando, desta feita, a primeira celebração do Dia da Viola da Terra, segundo noticia o 9 idAzores News.

 

Veja aqui duas performances em viola da terra, uma por cada modelo de viola:

 

Referências bibliográficas

 

José Alfredo Ferreira Almeida (2010). A Viola de Arame dos Açores. (2.ª ed.). Ponta Delgada: Letras Lavadas.
Manuel Ferreira (2010). A Viola de Dois Corações. (2.ª ed.). Ponta Delgada: Letras Lavadas.
José Wellington do Nascimento (2012). Viola da Terra, Património e Identidade Açoriana. (Dissertação de Mestrado). Universidade dos Açores, Portugal. Disponível em: https://repositorio.uac.pt/bitstream/10400.3/2880/1/DissertMestradoJoseWellingtonNascimento2013.pdf
Tribuna (2019, 23 de setembro). Dia da Viola da Terra. Tribuna das Ilhas. Disponível em: https://tribunadasilhas.pt/dia-da-viola-da-terra/
MiratecArts (2020, 28 de setembro). Dia da Viola da Terra é marcado pelo segundo ano de eventos. 9id Azores News. Disponível em https://www.9idazoresnews.com/2020/09/28/dia-da-viola-da-terra-e-marcado-pelo-segundo-ano-de-eventos/?fbclid=IwAR1HUzDhLBZCSsIQl_I-o6CNNd1TWPkgsQJipMKAPwgp-hcU8-Lqm0s-eto
Lusa (2019, 26 de outubro). Viola da terra, o instrumento açoriano que chegou aos nossos dias “graças ao povo”. Disponível em https://www.rtp.pt/noticias/cultura/viola-da-terra-o-instrumento-acoriano-que-chegou-aos-nossos-dias-gracas-ao-povo_n1181638

 

 

Para mais artigos Top Azores, clica aqui!

Partilhe

Deixe uma resposta