Top Azores: Uma breve história do Teatro Micaelense

Top Azores: Uma breve história do Teatro Micaelense

Neste artigo Top Azores contamos-te tudo nesta breve história do Teatro Micaelense, uma história de perseverança, em que o sentido de missão ultrapassa todas as dificuldades.

 

O Teatro Micaelense é um dos mais importantes e acarinhados espaços educativos e culturais da ilha de São Miguel. Mas qual será a história do Teatro Micaelense?

Inaugurado pela primeira vez a 25 de março de 1865, a história do Teatro Micaelense conta com o entusiasmo de um grupo de intelectuais e amantes da arte e da educação, entraves financeiros, incêndio, mudança de localização, dificuldades económicas, reabilitações…

 

Quando surgiu o teatro em São Miguel?

A 15 de junho de 1631 foi apresentada a primeira manifestação de teatro em Ponta Delgada, pelos jesuítas no seu Colégio

 

Os primeiros registos desta manifestação artística em Ponta Delgada datam de 1631.

Promoveram-na os jesuítas que, em jeito de elogiosa celebração, fizeram representar no seu colégio, em 15 de Junho. Existem registos de arremedilhos, entremezes e pantominas que no século XVIII teriam sido realizados em espaços ao ar livre  pela ilha de São Miguel.

SOUSA, Nestor (1995). “Teatro e Arquitecturas de Espectáculo nos Açores” in Programa de O Avarento. Câmara Municipal de Ponta Delgada.

 

Primeira sala de espetáculos em Ponta Delgada

A primeira sala de espetáculos em Ponta Delgada situava-se onde agora se encontra a Escola Secundária Antero de Quental

 

Datam do início do século XVIII, as primeiras notícias sobre a existência de um teatro em Ponta Delgada, no Paço do Conde da Ribeira Grande. Era uma sala de pequeníssimas dimensões, onde os curiosos representavam peças simples com o único propósito de entreter as suas famílias. Mais tarde seria demolido pelo 1.º Barão da Fonte Bela, para dar lugar à construção do seu palacete.

SOUSA, Maria Isabel (2006). O Teatro Micaelense e a sua actividade músico-teatral entre 1864 e 1898. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade de Lisboa. Dissertação de Mestrado.

 

José do Canto ordenou a construção do Teatro de São Sebastião para colmatar a falta de um centro cultural na cidade de Ponta Delgada

 

Devido ao fim desta pequena sala de espetáculos, José do Canto ordenou a construção do Teatro de São Sebastião na Rua da Fonte Velha (atual Rua Manuel da Ponte).

Serviu Ponta Delgada durante cerca de quarenta anos, tendo passado pelo seu pequeno palco

grupos de amadores e companhias profissionais que, em temporadas regulares, serviram o gosto das famílias micaelenses de mais alto estatuto social, nos géneros dramáticos e outros divertimentos lúdicos que Lisboa conhecia.

SOUSA, Nestor (1995). “Teatro e Arquitecturas de Espectáculo nos Açores” in Programa de O Avarento. Câmara Municipal de Ponta Delgada.

 

O Teatro Micaelense (1864-1930)

António Feliciano de Castilho fundou em Ponta Delgada, a 9 de setembro de 1848,  a Sociedade dos Amigos das Letras e Artes, quando se encontrava exilado em Ponta Delgada. A Sociedade tinha um programa vasto e diversificado, centrado na promoção da literacia e no fomento das artes, com relevo para o teatro e a música.

 

Ao contrário da Horta e de Angra do Heroísmo que já tinham construído os seus próprios teatros em 1856 e 1860 respetivamente, Ponta Delgada não tinha ainda o seu construído de raiz. Com o intuito, então, de dotar a cidade de um espaço cultural e educacional, que acomodasse não só o teatro, mas uma escola, secretaria, filarmónica, museus e outras atividades culturais, foi fundada, em 1848, a Sociedade Amigos das Artes e das Letras (SAAL) pelo poeta Castilho.

Um dos intentos da SAAL era precisamente angariar fundos para a criação deste espaço, chegando, inclusive, a planear a organização de peditórios, que não foram levados a efeito, pois dez dias antes do dia planeado (28 de abril de 1852), a ilha sofreu um violento terramoto.

Suspende-se então o peditório, e a SAAL empenha-se na construção de escolas e toma posição sobre o destino a dar às ruínas da igreja de São José, em dezembro de 1856, sendo aí o local escolhido para a edificação do Teatro Micaelense, onde atualmente se situa o Jardim Padre Sena Freitas.

Fachada lateral nascente do primitivo Teatro Micaelense. José Pacheco Toste – Photographia Central – Foto Toste

 

No ano seguinte, é constituída a primeira direção da Sociedade Theatral Michaelense, formada por João José Silva Loureiro, Ernesto do Canto, Jacinto Soares de Albergaria, Jacinto de Teles Adam e Capitão Luís de Bettencourt Corte Real. A STM viu-lhe ser concedido o espaço para a sua atividade pela SAAL.

 

Frente do Teatro Micaelense, onde se notam as influências neoclássicas italianas

O plano do que se chamou Teatro Micaelense, elaborado por B. Augusto Serra, teve desenhos de pormenor de Herculano Gomes Machado, irmão de Carlos Machado. No que se refere à arte cénica, o italiano Hércules Lambertini encarregou-se do palco, juntamente com Cândido Xavier. Outro artista que colaborou na execução cenográfica foi Guilherme Lima.

Entre 1859 e 1862, o papel da STM foi angariar fundos e acionistas para a construção do Teatro Micaelense.

Em 1861, dá-se início à construção do teatro, começando com a demolição da antiga igreja de São José, tendo esta fase durado cerca de seis meses. A 25 de março de 1865, dá-se a inauguração oficial do Teatro Micaelense.

Sala de espectáculos. José Pacheco Toste – Photographia Central – Foto Toste

 

Na página (online) “Música dos Açores”, da Direção Regional da Cultura, da autoria de Isabel Albergaria Sousa, pode ler-se que

O Teatro Micaelense era um teatro de modelo italiano para espectáculos músico-teatrais, inclusive a ópera, com características arquitectónicas italianas e com um sistema produtivo que inicialmente tencionava ser semelhante ao italiano mas que, por razões de insularidade, se teve de adaptar a todas as circunstâncias. Tornou-se a maior casa de espectáculos dos Açores desde 1864 até 1917 – data da abertura do Coliseu Avenida, apresentando ópera italiana, zarzuela e ópera cómica portuguesa em temporadas que nem sempre se realizavam anualmente (por exemplo entre 1864 e 1900 foram 14). Do repertório italiano destacam-se: Trilogia (RigolettoIl Trovatore La Traviata), ErnaniUn Ballo in Maschera e Luisa Miller de Verdi; La Sonnambula e Norma de Bellini; Il Barbiere di Siviglia de Rossini, FavoritaLucia di Lammermoor e Lucrezia Borgia de Donizetti. Do espanhol: Jugar con Fuego de Barbieri, Marina e El Dominó Azul de Arrieta, El Juramento Los Magyares de GaztambideLa Tempestad de Chapi.”

Era grande, como se constata, o gosto dos micaelenses, culturalmente mais exigentes, pelos espetáculos musicais (operáticos), sendo que muitos eram assegurados por artistas locais (professores de música) e cantores amadores que, igualmente, satisfaziam o público interessado. Note-se, que nem sempre era possível, por razões várias, a vinda de companhias nacionais ou estrangeiras, as quais, aliás, se deslocavam para temporadas que eram patrocinadas, em boa parte, pelo mecenato local.

Uma memorável e longa temporada, com “retumbante sucesso”, da Companhia Teatral Rey Colaço-Robles Monteiro, no Teatro Micaelense, nos meses de maio e junho de 1927. Jornal “Açoriano Oriental”. (Do arquivo histórico, em risco, do Liceu/Escola Antero de Quental).

 

Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, atuando no Teatro Micaelense em 1952

 

Também o teatro popular musicado era muito do agrado, não só da população de Ponta Delgada, mas, também, dos micaelenses em geral. A sátira política e social pontuava como o género mais cultivado e o mais apreciado pela generalidade dos espectadores. Aos espetáculos musicais e ao teatro popular, veio, posteriormente, juntar-se o cinema, que mereceu, igualmente, uma entusiástica adesão por parte do grande público, como se afirma neste artigo do blog Azorean Torpor.

O Teatro foi sofrendo alterações e remodelações continuadamente adaptando-se às exigências de gosto da aristocracia que o frequentava e à demanda do progresso. Para a instalação do primeiro cinematógrafo açoriano foi ampliado e melhorado entre 1898 e 1905. E foi no cinematógrafo que a tragédia que marcou o seu fim aconteceu.

A 9 de fevereiro de 1930, no final da noite, cerca das 22 horas, quando o operador cinematográfico e um ajudante estariam a enrolar os filmes que haviam sido exibidos naquele dia, num compartimento anexo à cabine, faíscas lançadas pelo motor eléctrico em ação alcançaram o filme, provocando um incêndio, que alcançou as madeiras do compartimento e por conseguinte o resto do edifício, tendo exatamente o mesmo destino do contemporâneo Teatro-Salão Ideal, que também foi destruído em 1930 por um incêndio.

Em pouco mais de uma hora, o Teatro Micaelense estava invadido pelas chamas
quedando sepultado nos seus escombros

 

O novo Teatro Micaelense

Dezasseis anos após o incêndio, o Conselho de Administração da Companhia de Navegação Carregadores Açorianos decide erguer um teatro. A construção de um novo TM enquadra-se numa altura em que a cidade de Ponta Delgada era alvo de uma campanha de várias construções, como o Campo de Jogos Marquês de Jácome Correia e, principalmente o rasgo da Avenida Marginal, que transformou profundamente a cidade de Ponta Delgada, nos anos 40-50.

c.1947, Avenida Infante D. Henrique, Ponta Delgada. A locomotiva do Porto de Ponta Delgada em trabalhos no aterro da futura avenida Marginal de Ponta Delgada. Em segundo plano pode-se ver o futuro “palácio dos correios” em construção. Foto: História dos Açores

 

O espaço escolhido para a construção do novo TM localizava-se na Rua de São João, onde, desde 1866, estava um antigo convento de freiras abandonado, desde a I República, tendo servido de quartel até à década de 40.

Convento de S. João nos anos 40, depois da II Guerra Mundial. Destruído e abandonado, foi demolido, e no lugar foi erigido o Teatro Micaelense. Foto retirada de História dos Açores

 

O Teatro Micaelense foi projectado pelo Arqº. Raul Rodrigues de Lima entre 1947 e 1951. Rodrigues de Lima era um especialista em salas de cinema e de teatro, tendo projetado, além do Teatro Micaelense, diversos cine-teatros como o Messias, da Mealhada, talvez o mais regionalista; o Avenida, de Aveiro; o Império, de Lagos; o Cinearte; e o Monumental, em Lisboa, este último, apesar de tudo, bem mais cosmopolita.

Foto: Manuel Miguel da Silva. Retirado de História dos Açores

 

Foi finalmente inaugurado a 31 de março de 1951. A festa de inauguração teve início às 20 h. Os funcionários começariam a receber aqueles que iam chegando a um evento em que o glamour dominava.

 

Os 1000 lugares de capacidade da sala de espetáculos e a amplitude e qualidade dos acabamentos do Salão Nobre impressionaram o público e visitantes.

 

 

Uma casa cheia assistia, deslumbrada, ao extenso programa. Seguiu-se um Baile, que durou até às 6 horas da manhã, e foi servida uma ceia magnífica, onde compareceram, com os seus fatos domingueiros, os principais operários. Seis anos depois do início das obras, num local diferente e rodeado de ruas e construções novas, o TM volta a viver, imponente.

DIAS, Helena (2004) Teatro Micaelense. Ponta Delgada.

 

O teatro de revista Lanterna Mágica, um original de José Barbosa, foi uma das peças de teatro/revista mais populares de sempre entre os micaelenses, tendo sido levada à cena em 1923, 1931, 1934, 1936 e 1956).

 

Os textos, os cenários e as músicas de Lanterna Mágica foram-se adaptando às novas circunstâncias sociais proporcionadas pela evolução natural dos tempos, o que permitiu a esta revista ser atual durante 40 anos.

 

Durante as duas décadas seguintes, o encanto do TM propagar-se-ia por Ponta Delgada, pois conseguiu ganhar o carinho da população. Contudo, foi-se mantendo aberto com muitas dificuldades económicas. Uma das soluções foi a venda de ações, tornando assim alguns micaelenses proprietários de parcelas da casa.

A Cinaçor – Sociedade de Teatro e Cinema Açores, S.A.R.L., da Fundação dos Botelhos de Nossa Senhora da Vida, torna-se sociedade gestora do TM, tendo sido criada com esse mesmo intuito em 1964. Até ao final do século XX – praticamente durante quatro décadas -, o TM foi gerido por António dos Santos Figueira, que também detinha a gerência do Coliseu Micaelense, inaugurado no dia 10 de maio de 1917.

O ator John Wayne, que, nos anos 60, foi recebido por Santos Figueira, gerente do Teatro Micaelense desde a abertura e até ao final do século XX.

 

O cinema mantinha o TM aberto diariamente. Mas, após o 25 de Abril de 1974, o público diminuiu substancialmente, fazendo reduzir as receitas do TM e de outras casas de espetáculo, criando assim uma grande crise no cinema. Como forma de colmatar as dificuldades que sempre sentiu, o Teatro abre-se, sucessivamente, à população, não só pelo lançamento da venda de ações para aumento de capital, mas também permitindo a exploração comercial.

A partir dos anos 80, regista-se novamente uma quebra de receitas, situação que piorou ainda mais na década seguinte, levando à degradação do edifício, fazendo temer o pior: a inevitável demolição, que, no entanto, nunca se veio a concretizar.

 

TM como Centro Cultural e de Congressos e sua nova glória

Reabilitado no início do novo milénio, o arquiteto responsável por este trabalho, Manuel Salgado, respeitou o traço arquitetónico original dos anos 50 do TM

 

Face à situação a que se ia assistindo, procurava-se uma solução. Cindida e dissolvida em 2001, a Cinaçor dá origem a duas novas empresas: a CM – Sociedade de Investimento Imobiliário, SA (que passa a gerir o Coliseu Micaelense) e a TM, SA, cujo Conselho de Administração é composto por Mário Mota Correia, Carlos Santos e Rui Nina Silva Lopes.

Para o projeto de recuperação, é nomeado o arquiteto Manuel Salgado, que manteve o máximo possível os modelos estéticos do cinquentenário edifício, mantendo assim, no que respeita ao exterior, o seu traço arquitetónico original, como se pode comprovar pelas fotografias antigas e o edifício atual.

As mudanças mais substanciais foram mesmo a aquisição de novas tecnologias, a modernização e a ampliação de espaços, e o aumento da lotação da sala de espetáculos e do Salão Nobre.

Em dez meses, o TM foi reabilitado pelas empresas Ediçor – Grupo Somague, Engil, S.A. e Marques S.A., tendo sido fiscalizado por Eng.Tavares Vieira Lda. As obras foram avaliadas em cerca de 7 milhões de euros.

O Teatro Micaelense reabriu ao público em 5 de setembro de 2004, abraçando o século XXI, com a sua conversão em Centro Cultural e de Congressos.

O Governo Regional dos Açores em sintonia com a Fundação dos Botelhos de Nossa Senhora da Vida (proprietária do imóvel) salvaram da ruína um património arquitectónico, artístico e cultural.

SILVA, Ana Maria Teixeira da (2004) “Teatro Micaelense – Centro Cultural e de Congressos” in Insulana, Órgão do Instituto de Ponta Delgada, vol.60: 213 – 216.

Com novas valências e um conteúdo programático de qualidade, alargaram-se as respostas na oferta cultural e abriu-se aos congressos e reuniões profissionais, dotado que ficou dos mais modernos equipamentos e requalificado em termos de aproveitamento dos espaços.

Com a grande diversidade de eventos e de manifestações artísticas e o seu Serviço Educativo, o Teatro Micaelense tem procurado desconstruir a ideia de que a cultura deve ser elitista. É por essa razão, aliada à qualidade da sua programação, que este espaço é tão acarinhado pelos micaelenses. Foto: Fernando Resendes

 

Desde então, o Teatro Micaelense – Centro Cultural e de Congressos vive uma vida nova, aberto ao mundo em constante mudança em que se insere e é, verdadeiramente, um Centro na atividade da ilha de São Miguel, sendo acarinhado pela população micaelense, constituindo-se e reafirmando-se parte do património local.

Em 2002, o TM foi classificado como imóvel de Interesse Público, devido ao seu valor histórico e arquitetónico, pelo Governo Regional dos Açores, fazendo com que houvesse um perímetro de salvaguarda em tudo o que era obra em seu redor. Contudo, tal situação não se verificou pois em janeiro de 2006, a Câmara Municipal de Ponta Delgada deu início à construção do parque de estacionamento subterrâneo junto ao TM, conhecido atualmente por Parque do Largo de São João.

Alexandre Pascoal é o atual Presidente do Conselho de Administração do TM

 

Atualmente, o Teatro Micaelense é uma entidade pública empresarial e que tem a tutela da Secretária Regional da Educação e Cultura do Governo dos Açores. A sua atividade está repartida entre a programação cultural (70%) e a do Centro de Congressos (30%), e o Presidente do Conselho de Administração é Alexandre Pascoal.

 

Fontes:

Teatros de São Miguel: o Espetáculo como Património. Dissertação de Mestrado de Rita Sofia Amaral Cabral de Frias

António Feliciano de Castilho

Acervo fotográfico do Instituto Cultural de Ponta Delgada

Restos de colecção

Curiosidades históricas sobre o mundo artístico micaelense, por Azorean Torpor

Entrevista a Alexandre Pascoal pela Coffee Paste

 

 

Neste artigo do Top Azores, conhece as melhor as maiores casas de espetáculo dos Açores

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