“Nada menos que um milagre”, de Markus Zusak – Desassossego Literário

“Nada menos que um milagre”, de Markus Zusak – Desassossego Literário

Sobre como as pessoas morrem vivas

Quantas histórias cabem num livro? Quantas personagens, quantos sentimentos, quantas dores e quantas alegrias? Se há algum escritor que o possa responder é, certamente, Markus Zusak.Depois de ler “A rapariga que roubava livros” nunca mais me esqueci do nome deste autor que me marcou pela capacidade de descrever ao pormenor tudo o que acontece na sua narrativa de uma forma que nos deslumbra, quase por completo, mas sem nunca tirarmos os pés do chão!Como tantos outros leitores, fiquei muitos anos à espera de novas palavras compiladas num livro por este escritor e eis que nos chegou o “Nada menos que um milagre”. Não quero aqui desvendar a história ou muito menos fazer uma recensão crítica ao livro, porque não tenho experiência neste ramo. Quero apenas escrever sobre ele, como uma forma utópica de me unir literariamente a este autor e aos seus leitores.“No início havia um assassino, uma mula e um rapaz.” Não era só uma mula, mas sim uma legião de animais que dão vida à quase não-vida destes cinco rapazes que se veem – repentinamente – entregues à sua sorte.Não se percebe por que é que este homem é apelidado de assassino logo no início do livro, e esta é a magia de Markus Zusak. Não se percebe logo ao início a importância que uma mula pode ter num texto de quase 500 páginas, e esta é a magia de Markus Zusak. Não se percebe como é possível um cenário de guerra instalar-se tão rapidamente na vida de uma família feliz como era a dos cinco irmãos Dunbar, mas Markus Zusak, com a sua magia, faz-nos entender isso e muito mais.Já bem no final do livro, lemos que “Quando vemos alguém morrer, não é unicamente à morte desse que assistimos.”, mas a verdade é que a morte vem desde as primeiras páginas deste livro a acompanhar os leitores, qual presságio de dor e de revolta que cada um de nós – uns de uma forma, outros de outra – já sofremos na nossa vida.Quando comprei o livro, vi um rapaz no telhado na capa e pensei como poderia um milagre estar relacionado com um conjunto de telhas a que chamamos teto. A verdade é que para Clay, o menino do telhado e o quarto dos irmãos Dunbar, o teto caiu quando perdeu as suas referências, ficando – assim como os irmãos – sem pai e sem mãe tão depressa quanto aquela família, outrora feliz, se construiu.Dói perceber o quão felizes foram Michael Dunbar e Penelope Dunbar antes de tudo não passar de um antigo sonho que haviam vivido. Este livro faz doer, assim como faz crescer.Neste livro há o antes, o agora, o entremeio, e o depois, porque o depois só existe quando tudo o que está para trás realmente aconteceu e quando tudo o que está para a frente nasce na nossa cabeça e no nosso coração.Há um intercalo de dor nesta história que nos arrebata e que nos agarra a cada página, a cada capítulo – feito e escrito já curtinho mesmo para pensarmos que é só mais um antes de desligarmos a ficha daquela história.Escritores destes não se cruzam na nossa vida por acaso nem tão somente com frequência. É preciso beber o que nos dizem pessoas como Markus Zusak que sentem e escrevem com o coração, sabendo que vão deixar os outros a pensar, a refletir até serem melhores.No final do livro, perdoei os supostos assassinos ou criminosos de corações, pois percebi que também eles já tinham sido assassinados!Neste livro compreendi como é possível morrer-se estando ainda vivo, estando de pé e vergando os dias por uma família que passou de sete para cinco pessoas, como tem que fazer Matthew, o mais velho e – talvez – mais ressentido dos Dunbar.Não percam esta leitura, conheçam a Penélope, sim como a de Homero, a Penélope que é menina, que foge, que se perde e que se encontra e que – às tantas – percebe que “(…) era de facto paradoxal combater aquilo, era imbecil ela matar-se para sobreviver”.Conheçam o homem que teve a coragem de voltar para tentar remediar a ausência que deixou.Percebam, ainda, como é que uma ponte, feita de muito mais do que blocos e cimento, pode unir tudo o que estava desunido e destruído na desesperança!Leiam, simplesmente, e sintam o que é uma família destruída, perdida e reencontrada, porque – afinal – “Quando somos capazes de esperar, sentimos que o prémio é merecido”!
Bem-haja, Markus Zusak!


Patrícia Carreiro

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