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Luís Mendonça: «A vida quotidiana nos Açores não tem sido suficientemente valorizada nos estudos historiográficos das últimas décadas»

Foi lançada recentemente a segunda edição do livro Aspetos da Vida Quotidiana nos Açores – Perspetiva Histórica, de Luís Mendonça, que visa deixar algumas pinceladas acerca da vida quotidiana nos Açores ao longo dos séculos.

Luís Mendonça, nesta entrevista à Agenda Açores, discorre acerca das razões que o levaram a lançar a segunda edição do livro, de como foi o processo de colonização dos Açores e consequente distribuição de terras no arquipélago, as assimetrias sociais entre a nobreza das ilhas e as classes trabalhadoras, o fenómeno da emigração, a evolução da alimentação e da habitação, a religiosidade e espiritualidade dos açorianos e o ritual de namoro/casamento das classes populares.

Fica a saber mais sobre alguns Aspetos da Vida Quotidiana nos Açores nesta entrevista, ilustrada com fotos antigas, ao historiador micaelense Luís Mendonça.

1 – Aspetos da Vida Quotidiana nos Açores — Perspetiva Histórica, escrito em 1998, foi revisto e atualizado, e a segunda edição já está nas bancas. Porque decidiu fazê-lo agora em 2021?

Esta nova publicação resultou, basicamente, da conjugação de alguns fatores, de certa forma interligados: o ter presente que o livro conhecera uma aceitação apreciável aquando da primeira publicação; o facto de ele corresponder a uma dimensão da História (o da vida quotidiana) que, de então para cá, continuou um pouco à margem das preocupações historiográficas locais, salvo raras exceções; por conseguinte, a perceção de que o livro em causa merecia uma nova oportunidade, ainda que com uma nova roupagem, com as atualizações que se impunham em termos bibliográficos, no sentido de se tornar uma obra mais rica, mais diversificada em termos temáticos e mais consistente; e, finalmente, a circunstância de o senhor Ernesto Resendes, responsável pela Publiçor, ter aceitado prontamente o repto no intuito de uma possível publicação deste livro.

 

2 – Os tempos dos primeiros colonos foram muito difíceis. O povoamento dos Açores e da Madeira constituía a primeira experiência de transplantação de um grupo humano para terras completamente virgens, num esforço em que ninguém foi poupado, nem os de origens sociais mais privilegiadas. Que desafios tiveram essas pessoas de enfrentar, numa primeira fase, e como foram depois as terras atribuídas, resultando na diferenciação social?

O maior desafio dos primeiros povoadores do arquipélago foi precisamente encontrar as ilhas desabitadas e onde tudo era necessário fazer: derrubar o denso arvoredo, desbravar os terrenos e torná-los aráveis, com o recurso a técnicas rudimentares, exigindo um grande desgaste físico. As populações tiveram de erigir as primeiras habitações, certamente desprovidas de qualquer conforto e, numa época em que ainda não estavam regularizadas as comunicações com o exterior (nomeadamente com o Reino), viveriam numa situação de isolamento e de quase autossubsistência.

De qualquer forma, a distribuição de terras em regime de sesmarias parecia abrir boas perspetivas à classe camponesa (obtenção de terra própria), situação rapidamente invertida pelo modo “viciado” como os capitães das ilhas procederam à concessão de terras, beneficiando os seus favoritos ou os que de alguma forma tivessem qualquer tipo de ligação com nobres do Reino. Os mecanismos do mercado (sobrevivência dos mais fortes) acabariam por acentuar esse quadro, contribuindo para que se reproduzisse no arquipélago a organização social já existente por todo o país.

 

3 – O trabalho começou a ser visto pela nova nobreza da ilha como algo desprestigiante. E a ociosidade começou a ser fomentada nesta classe social. Condição, essa, que muitos burgueses quiseram a posteriori imitar. Porquê este tipo de pensamento tão oposto ao dos dias de hoje, em que cada vez mais há o culto do trabalho? O que motivou também esta mudança de paradigma?

Na sociedade do Antigo Regime, as atividades mecânicas ou manuais (agricultura, pecuária, pesca, artesanato ou mesmo o comércio) eram consideradas desprestigiantes e, como tal, comprometiam qualquer estratégia que visasse a promoção social. A nobreza, a condição a que qualquer mortal desejava aspirar, definia-se pela capacidade de nada fazer, de viver de forma ociosa e completamente dissociada do processo produtivo. Era o que então se designava de “viver à lei da nobreza”.

A mudança de paradigma ocorreu com as Revoluções Liberais e com a Revolução Industrial, que instauraram uma nova ordem política, social e económica, contribuindo para o triunfo da burguesia e da mentalidade capitalista, caracterizada precisamente pelo culto do trabalho, da poupança e do investimento em atividades produtivas, como o comércio, a indústria ou a banca.

 

4 – Os interesses da nobreza proprietária das terras não eram os mesmos dos dos camponeses. Às classes trabalhadoras eram-lhes impostas rendas fixas independentemente do resultado das colheitas, entre outras cobranças, o que levou ao seu endividamento e subsequente fome, tendo, inclusive, muitos dos trabalhadores ter que vender a própria roupa para conseguir dinheiro para pagar as dívidas ou até, em casos extremos, alimentar-se de raízes e ervas impróprias para consumo. Várias medidas foram propostas pelo Reino de Portugal para travar a ganância dos proprietários, mas sem sucesso. Fale-nos um pouco sobre isso.

A nobreza, apesar de ociosa, vivia dos seus rendimentos, que seriam tanto maiores quantas mais terras acumulasse ou maior a quantidade de produtos que conseguisse canalizar para o exterior, nomeadamente os cereais. Ou seja, a nobreza latifundiária foi alimentando uma atitude gananciosa e este facto refletiu-se numa exploração crescente da classe camponesa, que recebia uma insuficiente recompensa pelo fruto do seu trabalho.

A exportação excessiva de cereais, sendo vital para os interesses dos grandes proprietários (entre outros), produzia um efeito inverso junto das populações rurais, que, um tanto ironicamente, se viam com frequência privadas de consumir os cereais que elas próprias produziam. Apesar das intervenções da Coroa no sentido de precaver ou minimizar os efeitos de tal prática, havia um claro conflito de interesses e um desnível de forças que fazia pender o “prato da balança”, por norma, para os mais poderosos.

 

5 – Com medo de serem despedidos, os trabalhadores foram “aceitando” praticamente de forma passiva o aumento de impostos e a precariedade das suas condições laborais, salvo pequenas exceções, como a questão dos baldios e a Justiça da Noite (Esborralhas). Explique-nos um pouco esta revolta popular.

O fenómeno da apropriação individual dos terrenos baldios, das chamadas terras comunais, ocorreu em todo o território nacional e suscitou resistências um pouco por toda a parte. Todavia, o fenómeno da Justiça da Noite (Esborralhadas) foi algo de muito singular e representou uma reação popular levada até às últimas consequências. As populações locais, sobretudo de diversas freguesias da ilha Terceira, não se conformavam com o facto de os terrenos que desde tempos imemoriais pertenciam à comunidade e dos quais todos podiam usufruir, recolhendo lenha, apascentando rebanhos, etc., puderem ser, de um momento para o outro, alvo de uma apropriação individual (de pessoas influentes e endinheiradas), sob o argumento de que assim seriam melhor aproveitados. Por isso, logo que aqueles terrenos se tornavam propriedade privada e vedados com tapumes ou muros de pedra, os populares recorriam ao fenómeno das esborralhadas, para tentar travar o processo de apropriação individual. No fundo, eles estavam persuadidos de que aqueles terrenos deveriam manter-se na condição de baldios e, como tal, agiam pela calada da noite e encapuçados (para não serem reconhecidos pelas autoridades policiais), a fim de reporem uma situação de suposta justiça social.

 

6 – A fragilidade económica das classes trabalhadoras e a fome foram a causa principal da emigração, principalmente para o Brasil, os Estados Unidos da América e o Canadá. Porquê estes destinos?

A emigração açoriana foi uma consequência das desigualdades sociais que se foram instalando no arquipélago, uma resposta dos mais desprotegidos à situação de fragilidade económica em que se encontravam.

Durante muito tempo, a emigração açoriana e portuguesa em geral foi direcionada para o Brasil, então colónia portuguesa, sendo patrocinada pela Coroa. Era, igualmente, uma emigração de casais, de famílias inteiras, e tinha uma função colonizadora, isto é, a de ocupar regiões menos povoadas do Brasil (o caso mais emblemático foi a Grande Migração Açoriana para Santa Catarina e o Rio Grande de São Pedro, na região meridional da colónia brasileira). Mesmo após a independência do Brasil (1822), a emigração açoriana continuou a ser dirigida durante largas décadas para a nossa ex-colónia, pois a afinidade da língua, o mito do enriquecimento fácil naquelas paragens e a política do governo brasileiro de incentivo à imigração europeia, continuaram a ditar essa preferência por terras de Vera Cruz.

Exposição “Em Busca do Sonho – Memórias da Emigração”. Estados Unidos da América, século XIX

No último quartel do século XIX, a emigração para o Brasil, cada vez menos atrativa, foi cedendo o lugar à emigração para os Estados Unidos, considerado o novo Eldorado, quer as terras férteis do vale da Califórnia, propícias às atividades agropecuárias, quer as zonas de franca industrialização da costa leste, que absorviam quantidades crescentes de mão de obra europeia, incluindo dos Açores.

Após um período de grande contração migratória entre 1920 e 1950, ditada por uma conjuntura externa pouco favorável, com destaque para a crise económica de 1929 e seus efeitos, nos inícios da década de cinquenta abre-se um novo capítulo na história da emigração. Esta nova era, caracterizada por um surto migratório a todos os títulos excecional, foi marcada por dois acontecimentos decisivos: o levantamento das restrições que até então vinham sendo impostas pelos Estados Unidos e o estabelecimento de uma corrente migratória regular para o Canadá, na sequência de negociações levadas a efeito entre os governos português e canadiano em 1953.

Em suma, a emigração açoriana para o Brasil, Estados Unidos e Canadá ocorreu em períodos e contextos distintos e foi ditada não só pela vontade das populações locais em emigrar, mas igualmente pela natureza dos lugares de destino, pela atração que exerciam e pelos incentivos criados para viabilizar essa mesma emigração, nomeadamente da parte dos seus países de destino.

 

7 – O trigo foi dos primeiros cereais a serem plantados nos Açores. Além do trigo, que outros alimentos eram a base da alimentação dos açorianos na época do povoamento e de que forma esta se foi alterando?

Colheita do Trigo na ilha do Faial em 1905

Desde os primórdios do povoamento do arquipélago, o trigo assumiu-se como o grande suporte da alimentação açoriana, complementado por uma variedade de produtos como a batata-doce, o inhame, a abóbora, os legumes, o vinho, a carne e o peixe. Com o acentuar das desigualdades sociais, a carne bovina passou a ser acessível apenas aos mais abastados, ao passo que a classe popular ficou cada vez mais dependente da carne proporcionada pela criação de galinhas ou de porcos. A carne de porco tornou-se tão imprescindível na dieta alimentar da população rural que certo estrangeiro observava, decerto com algum exagero, que se a alguém lhe morresse o porco, logo os vizinhos se apressavam a dar-lhe os pêsames.

Confeção de enchidos na freguesia da Maia (S. Miguel). Anos 60 do século XX.

Ao longo do século XVIII foram implementadas duas novas culturas nos Açores, o milho grosso e a batata inglesa, que inicialmente até suscitaram reações hostis da parte dos insulares, por estranharem o seu sabor e duvidarem do seu valor nutritivo, mas que, passada essa fase de adaptação, se assumiram como dois pilares da alimentação local até uma época bem recente.

 

8 – Os primeiros povoadores construíram as suas casas com o pouco material de que dispunham. Como eram as suas primeiras habitações e como foram elas evoluindo, principalmente as da nobreza?

Uma casa rural de São Miguel no início do Século XX. 

Aquando do povoamento das ilhas, reinava uma grande modéstia, que se refletia nas próprias habitações. Com efeito, as mais primitivas casas que se foram erguendo no arquipélago não passavam de cafuas, rapidamente improvisadas para proteger do frio, do calor ou da chuva. E, no dizer de Gaspar Frutuoso, mesmo as povoações de Angra e Ponta Delgada, antes de serem ricas e afamadas cidades, começaram por ser pobres aldeias compostas por casas bastante rudimentares.

Todavia, à medida que se foram acentuando as clivagens sociais nas diversas ilhas, tal facto traduziu-se necessariamente numa clara diferenciação das habitações. Assim, a esmagadora maioria da população continuou a viver durante séculos em míseras casas, de espaço exíguo, construção rudimentar e desprovidas de qualquer conforto interior. No geral, eram casebres baixos, com tetos de colmo, paredes de pedra ou de taipa, chão de terra batida, com poucas divisões interiores feitas de cana e sem vidros nas janelas, mas simples postigos de madeira, insuficientes para isolar do frio e do calor, com o inconveniente de que, ao fechá-los, as casas, privadas da luz solar, ficavam às escuras.

Detalhe de jardim de casa de família abastada na cidade de Ponta Delgada com empregados em pose (1897)

Contrariamente, a nobreza local não prescindiu de viver em habitações condizentes com o estatuto económico e social que foi adquirindo, até porque esta era uma forma de dar visibilidade a esse mesmo estatuto. Já Gaspar Frutuoso foi dando conta dessa realidade, ao constatar o surgimento de sumptuosas casas, solidamente edificadas e de dois sobrados, localizadas sobretudo em Angra e Ponta Delgada. Assim, a partir de finais do século XVI, nos mais importantes centros urbanos começaram a predominar casas de três andares, caiadas de branco, orladas de pedra lavrada nas ombreiras das portas e cantarias das janelas nas fachadas, pertencentes às pessoas endinheiradas da nobreza e, até, da burguesia. Já no século XIX, os lucros proporcionados pelo “ciclo da laranja” e os contactos mais intensos com os países mais civilizados da Europa, constituíram uma oportunidade para reforçar o conforto de muitas daquelas habitações, com a generalização do uso de cadeiras, de vidros nas janelas, bem como de mobiliário importado da Europa. Enfim, como alguém observou, surgiram então palácios principescos e ladeados de belos jardins.

 

9 – Os responsáveis nacionais pelo povoamento das ilhas tiveram a preocupação de que estas fossem povoadas por cristãos e que as populações fossem acompanhadas no plano espiritual, mantendo, assim, nas ilhas o catolicismo pretendido em todo o território nacional. Mas de que forma o isolamento das ilhas e das suas gentes, o vulcanismo, os sismos e outros fenómenos naturais adversos, aliados a uma pobreza extrema, condicionaram a religiosidade no arquipélago? Que especificidades tem a espiritualidade açoriana?

Festas do Espírito Santo em São Jorge nos anos 20 (século XX). Fotografia de autor desconhecido, coleção de Lino Bettencourt Amarante

A religiosidade/espiritualidade é um dos traços definidores da idiossincrasia portuguesa em geral, não correspondendo a uma especificidade da população açoriana. Todavia, as características geográficas do arquipélago (o isolamento, o vulcanismo), terão contribuído para manter bem viva a chama da religião e uma vivência espiritual particularmente intensa. Luís Bernardo Leite de Ataíde percebeu, melhor do que ninguém, essa estreita relação entre o vulcanismo e o espírito religioso das populações: “Em presença de uma erupção vulcânica ou de um abalo de terra, o homem sente com desusada violência a sua fraqueza e a grandeza das misteriosas forças naturais que o cercam. Surpreso, apavorado, procura acolher-se à protecção divina, porque as forças que se desencadeiam em sua volta excedem muito todas as suas possibilidades de defesa, e recorre então a Deus para que lhe salve a vida ou lhe conceda uma boa morte”.

Muitas das festividades religiosas do arquipélago tiveram origem ou assumiram uma grande relevância e projeção mercê dessa associação aos fenómenos vulcânicos (Romarias da Quaresma, Festas do Espírito Santo ou mesmo do Senhor Santo Cristo dos Milagres).

Santo Cristo em 1901. Revista Harper’s

De destacar que o próprio discurso oficial do clero local foi no sentido de interpretar as catástrofes naturais (com destaque para os tremores de terra), como meras manifestações da ira divina face à atitude pecaminosa das populações. Daí que estas, através de procissões, quase sempre acompanhadas da coroa do Espírito Santo, esperassem uma intervenção milagrosa do mesmo Deus que as castigava pelos supostos comportamentos menos dignos.

Foliões micaelenses nas festas do Divino Espírito Santo

Parece oportuno acrescentar que existiam no arquipélago dois universos religiosos, a religião oficial, veiculada pela hierarquia eclesiástica, e a religião popular ou das massas, que nem sempre estavam em sintonia. Tal facto é bem percetível nas festas do Espírito Santo, compostas por um misto de sagrado e profano, merecendo um grande envolvimento popular, com um entusiasmo que não raras vezes deu origem a possíveis excessos (a festa do bezerro, os bailes junto à igreja, etc.), e que tiveram de ser reprimidos pela estrutura eclesiástica.

 

10 – Conte-nos um pouco sobre os rituais do namoro e do casamento nas ilhas e as diferenças de como estes se processavam dependendo da classe social.

Ao longo dos séculos, o casamento foi a grande aspiração de qualquer jovem, independentemente do grupo social a que pertencesse.

Sobretudo entre as populações rurais, os casamentos realizavam-se, por norma, entre pessoas da mesma localidade ou de localidades vizinhas, facto que dava origem a muitas ligações consanguíneas. De acordo com Urbano Mendonça Dias, entre a classe popular o namoro passava por três fases: uma fase preliminar, o “namoro no canto da rua”, uma espécie de abordagem à distância, feita basicamente de gestos e olhares; uma segunda fase, de aproximação física, o “namoro à janela”; e, por fim, o “namoro de portas adentro”, quando o rapaz recebia a devida autorização para frequentar a casa da namorada, correspondendo à oficialização da relação.

Namoro à Janela na década de 50 (século XX) em São Miguel

A situação era bem distinta entre as classes mais remediadas, em que a fase do namoro decorria de uma forma mais célere, pois o casamento era visto, na sua essência, como um negócio, uma união de conveniência. Como observavam os irmãos Bullar, “rapaz e rapariga que sejam herdeiros de propriedades convenientemente próximas, passam, por tal razão ou outra parecida, à situação de noivos; e o pretendente, em vez de atravessar as fases do namoro, dá a entender o seu desejo aos pais da menina, e o negócio efectua-se rapidamente”. Na verdade, para as famílias de condição social mais elevada, o casamento perfeito era aquele que, com claro prejuízo dos sentimentos pessoais dos cônjuges, satisfazia determinados requisitos como a concordância de estatutos e fortunas e a decisão dos pais.

Capelo e Trajo de Lã Rico Masculino

Por fim, acrescente-se um detalhe, as noivas casavam com os característicos capote e capelo, algo que as classes populares encaravam com grande seriedade, ao ponto de os camponeses adiarem o seu pretendido casamento até ao momento em que obtivessem os meios necessários para a sua aquisição.

 

11 – Por fim, o que gostaria que as pessoas mais retivessem na leitura deste livro? E qual a importância de se estudar a vida quotidiana das gentes, a chamada ‘pequena história’?

O que eu gostaria de sublinhar em relação a este livro é que, resgatando as informações contidas nos preciosos estudos realizados por reconhecidos etnógrafos açorianos, nos relatos de viagens de diversos estrangeiros, ou na obra de Gaspar Frutuoso, entre outros, ele procura, num todo que se pretende coerente, privilegiar o estudo da vida quotidiana nos Açores, que (na minha modesta opinião) não tem sido suficientemente valorizada nos estudos historiográficos das últimas décadas. Como é dito na própria contracapa, a intenção é deixar algumas pinceladas acerca da vida quotidiana nos Açores ao longo dos séculos, realçando não só aspetos da existência material, como a alimentação, as habitações, o vestuário, os utensílios, ou a posse (ou não) de riquezas/propriedades, mas igualmente questões do foro espiritual e mental das populações açorianas, reveladoras da sua maneira de sentir e pensar e da forma como foram reagindo às diversas contrariedades do quotidiano, caso das catástrofes naturais, da doença ou da proximidade da morte. E esta dimensão da história, mais humanizada, com pessoas “de carne e osso”, não pode nem deve ser subalternizada.

 

*Todas as fotografias foram retiradas da página de Facebook História dos Açores.

 

Entrevista elaborada por Ana Oliveira

 

Biografia de Luís Mendonça:

Luís Mendonça nasceu na ilha de S. Miguel, mais precisamente no concelho da Povoação, em 1963. Frequentou a Universidade dos Açores, tendo concluído a Licenciatura em História e Ciências Sociais em 1987. Mais recentemente (2015) concluiu o mestrado em História, especialidade de Brasil colonial, pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Exerce a função de lecionação no âmbito da disciplina de História (Ensino Secundário), que procura conciliar com a atividade de pesquisa no domínio da História dos Açores e do Brasil.

 

 

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