Top Azores: A influência socioeconómica e cultural hebraica nos Açores

Top Azores: A influência socioeconómica e cultural hebraica nos Açores

Top Azores: A influência socioeconómica e cultural hebraica nos Açores

 

Celebra-se a 1 de setembro o Dia Europeu da Cultura Judaica. O objetivo desta data é dar a conhecer melhor a cultura judaica e as suas tradições nos países europeus através de atividades relacionadas com esta cultura. E a equipa editorial do Top Azores decidiu dedicar um artigo sobre a vinda de alguns membros do povo hebraico aos Açores, a sua influência socioeconómica e cultural hebraica nos Açores e o seu património.

 

1. A vinda dos povos judeus para os Açores (Povoamento)

Segundo Francisco Miguel Nogueira, na sua coluna de opinião no Jornal da Praia, de 24 de novembro de 2017, os primeiros judeus de Portugal continental que aportaram aos Açores, pela ilha Terceira, foram oferecidos como escravos a Vasco Anes Côrte-Real, primogénito de João Vaz Côrte-Real, devido à expulsão desta comunidade por D. Manuel I, em 1496, condição imposta para que este se conseguisse casar com a Infanta D. Isabel de Espanha, filha de reis católicos.

Massacre de Lisboa: “Da Contenda Cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus Crucificado”

D. Manuel I, porém, apercebeu-se de que a saída dos judeus do País levaria, também, à fuga de capitais do Reino, pois a comunidade judaica era formada por um escol de mercadores, banqueiros, médicos, economistas, ourives, entre outras atividades. Era portanto gente endinheirada. Para o rei, a saída de tanta riqueza não podia acontecer, sobretudo num momento em que a aposta nos Descobrimentos era cada vez maior, e o capital judaico era muito necessário. Assim sendo, D. Manuel I decretou a conversão forçada de judeus, e até de muçulmanos, ao Cristianismo no prazo de dez meses. Nasceu, assim, o conceito de cristão-novo (os cristãos que já existiam passaram a ser os cristãos-velhos). Em 1499, os cristãos-novos foram proibidos de sair de Portugal, mas tinham acesso a cargos políticos, administrativos e eclesiásticos. Além disso, D. Manuel I deixou-os praticar a sua religião de forma secreta, tendo uma política de grande benevolência para com os antigos judeus. Contudo, a diferenciação entre cristãos-novos e velhos era muito grande e estes últimos, impuseram várias perseguições e até massacres, obrigando muitos dos cristãos-novos a sair do país. Estes sentiam-se portugueses de segunda.

A 22 de maio de 1501, aportaram à Terceira, vários náufragos cristãos-novos que fugiam à perseguição no Continente. Estes se encontravam numa caravela que se dirigia para África, levando um grande número de judeus. O mar bravio destruiu-lhes o barco e obrigou-os a pedir ajuda na Terceira, provavelmente através do atual Porto Judeu. Vasco Anes Corte-Real, o Capitão Donatário de Angra, avisou D. Manuel I do sucedido e o Rei ofereceu-lhe os judeus como escravos. Assim nasceu a primeira colónia judaica na Terceira e nos Açores.

Segundo M. J. de Andrade, no jornal Açoriano Oriental, a 29 de maio de 1988, os descendentes de judeus que vieram para as ilhas não praticavam o culto hebraico, por receio dos cristãos-velhos, não havendo assim notícias de existência de locais de culto, mesmo no anonimato, havendo, pois muitos açorianos que carregam os genes deste povo sem o saberem.

O medo não era infundado, veja-se o que fez, em 1555, o bispo de Angra, D. Jorge de Santiago, em visita pastoral, identificou alguns cristãos-novos, suspeitos de infrações às leis da religião cristã, prendeu-os e mandou embarcá-los para Lisboa, aos cuidados da Inquisição, segundo o artigo “O último judeu dos Açores”, de Inácio Steinhardt.

Segundo o opúsculo de António Ferreira Serpa, editado no Porto em 1925, Suum Cuique, na ilha de São Miguel existem, a partir do século XV, descendentes, por via reta masculina, de cristãos de nação hebraica, de apelido «Borges, Medeiros, Dias, e Araújos».E ainda um trabalho genético, realizado há poucos anos na Unidade de Genética e Patologia Moleculares (UGPM) do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), de Ponta Delgada, chegou à conclusão de que 13,4% do DNA das ilhas é judeu (VIEIRA, 2005).1

 

2. Segunda vaga de emigrantes judeus no século XIX

Foto: Cais de Ponta Delgada no século XIX. História dos Açores (Facebook)

No século XIX, no advento do Liberalismo, é concedida liberdade religiosa e é proclamado o fim do Santo Ofício. Isso, aliado, à péssima qualidade de vida dos judeus marroquinos levou a que estes vissem Portugal como um possível destino onde pudessem melhorar a sua condição. A população judaica de Marrocos não só teria de conviver com sucessivas epidemias que haviam dizimado recentemente as populações locais e criado condições económicas adversas, mas também com uma certa instabilidade política, em que a sucessão do sultão era quase sempre decidida pelas armas, o que colocava os judeus, na sua situação de «tolerados», à mercê de frequentes saques e pogromes, como é referido no artigo «História da presença judaica nos Açores», de Inácio Steinhardt.

Os primeiros destinos destes imigrantes foram o Algarve e os Açores. Naturalmente havia uma comunicação familiar entre as duas comunidades judaicas e aquela que se viria a desenvolver em Lisboa.

Porquê os Açores? Nas ilhas do arquipélago, eles identificaram potencial para um comércio inovador e lucrativo, principalmente na área do comércio de tecido.

Os primeiros judeus desembarcaram em Ponta Delgada, em 1819, e estes foram Abraão Bensaúde, Salom (Shalom) Buzaglo, Arão Benayon, Jacob Mataná, Isaac Sentob e Arão Aflalo.

 

3. Presença judaica nos Açores e a sua influência socioeconómica

Quando chegaram aos Açores, a maioria dos judeus trazia stocks de tecidos para vender. Até então, a gente do povo vestia-se com roupas de linho, cultivado e tecido localmente, nas aldeias, em aparelhos primitivos, ou tecidos de lã de carneiro, também de criação local. Alguns estabelecimentos vendiam tecidos importados do Continente, cujos preços o povo não podia alcançar. Os judeus recém-chegados ofereciam agora tecidos portugueses e ingleses a preços inferiores aos dos comerciantes locais. Isso causou uma revolução social.

O antagonismo do comércio local viria a inverter-se quando os comerciantes se deram conta das vantagens que podiam obter, eles próprios, adquirindo por atacado as mercadorias importadas pelos judeus e vendendo-as no varejo a preços convidativos para a população, o que aumentava consideravelmente o volume dos seus negócios e a situação económica dos Açores. Os produtores, por sua vez, beneficiavam-se dos volumes da exportação. Aí, os judeus passaram a ser bem-vindos. Também se integraram na vida social e cultural dos Açores, e foi-lhes permitido adquirir a nacionalidade portuguesa para si e para os seus descendentes.

Salomão Bensaúde, filho de Salom Assiboni, o primeiro judeu desembarcado em Angra do Heroísmo de que há notícia (não se sabe ao certo quando chegou, mas o primeiro documento em que é mencionado data de 1824), foi para a Terceira como empregado de confiança de seu primo, Jacob Bensaúde, filho de Judah Assiboni (Bensaúde). Antes de 1834 mudou-se para Ponta Delgada. Foi o fundador da firma Salomão Bensaúde, Filhos & C.ª, e mais tarde de S. Bensaúde & Filhos, que acabou por se fundir com Herdeiros de Elias Bensaúde, numa nova firma com a designação de Bensaúde & C.ª, mais conhecida nos nossos dias como Grupo Bensaúde, a maior empresa do arquipélago, desde finais de Oitocentos até aos nossos dias.

Outras famílias judaicas importantes na ilha Terceira foram os Bensabat (de Mogador-Essaouira), os Levy (de Tetuan), os Benarus (de Marraquexe), famílias que, depois da dissolução das comunidades ilhoas, se distinguiram na comunidade de Lisboa e na alta sociedade da capital.
Porém, o mais emblemático dos judeus marroquinos da Terceira foi, sem dúvida, Mimon Abohbot, cujo nome ficou conhecido na ilha, como o “Rabino e Deão dos Judeus”.

Foto: Mimon Abohbot

Mimon nasceu em 1800, em Mogador (Essaouira). Antes de completar 24 anos, embarcou para Lisboa, onde foi contratado pelo seu conterrâneo Salon Buzaglo, para trabalhar para ele como caixeiro-viajante nas ilhas dos Açores, com base em Angra do Heroísmo. Dois anos depois, por desavenças com o patrão, separou-se deste e estabeleceu-se por conta própria. Tinha loja de fazendas e panos, que importava da Inglaterra, juntamente com outras mercadorias, e exportava laranjas.

Mas a família judaica com maior relevância nos Açores é, sem dúvida, a Bensaúde. Mercê de alguns empreendimentos ousados, como a Fábrica de Tabaco Micaelense, os investimentos turísticos, com destaque para a sociedade Terra Nostra, o desenvolvimento dos negócios de transporte marítimo e a fundação da Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos – SATA, ligaram o nome Bensaúde aos baluartes da economia os Açores. O Grupo Bensaúde fundou o Banco Micaelense, depois Banco Comercial dos Açores, BANIF, e hoje em dia, Santander. Criaram a Parceria Geral de Pescarias, para a faina do bacalhau, e a Empresa Insulana de Navegação. Envolveram-se na indústria do Açúcar, nos Seguros, Combustíveis, entre múltiplas outras atividades.

O Banco Micaelense foi um dos negócios fundados pelo Grupo Bensaúde. Foto: História dos Açores (Facebook)

A partir de 1916, os Bensaúde começaram a importar, armazenar e fornecer carvão para a navegação, mas depois da II Guerra Mundial, quando o carvão perdeu grande parte do seu valor, adquiriram uma instalação para armazenamento de combustíveis líquidos em São Miguel. Foi nesta altura que o clã se converteu ao catolicismo, provavelmente com medo da expansão do anti-semitismo de Hitler.

Pioneiros, na década de 30, os Bensaúde construíram o primeiro campo de golfe dos Açores, [Furnas], onde mais tarde edificaram um hotel [Parque Terra Nostra], segundo refere Rita Roby Gonçalves, no artigo «Bensaúde em São Miguel: primeiros judeus nos Açores».

No entanto, presença judaica nos Açores extinguiu-se cerca de 50 anos depois do seu início. Por volta de 1873, as famílias judaicas começaram, uma após outra, a debandar e buscar outras partidas, quer no Continente, quer no Brasil e outras terras. Tal como a sua chegada, também a partida se deveu a razões económicas. O declínio da produção e exportação da laranja, e a imposição de um regime de pautas aduaneiras menos favorável, levou os negociantes judeus a procurar novos rumos para a sua atividade empresarial. Na segunda metade do século XIX já a comunidade judaica dos Açores estava consideravelmente reduzida.

Contudo, uma pequena comunidade de judeus foi surgindo devido às perseguições nazis de Adolf Hitler.

O Dr. Friedmann foi um dos judeus que se refugiou nos Açores, fugindo à perseguição nazi. Foto: Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental (Facebook)

«Durante a Segunda Guerra Mundial, período em que Portugal recebeu refugiados judeus, um pequeno número deles foi estabelecer-se em Ponta Delgada. Quase todos chegaram a partir de 1938 e mantiveram-se até a década de 1950. Destacavam-se: o cirurgião alemão Dr. Friedman, muito conceituado; duas famílias de comerciantes Gordon e Katzan; Luser (Lazar) Sales, sem família, também lojista; e Philip Reich, que conduzia os serviços religiosos na sinagoga, aonde iam ainda alguns dos sefarditas marroquinos que ainda se mantinham na cidade, e que desempenhava também a função de shochet de carne kasher.

Em abril de 1970, havia cerca de 30 judeus na base americana das Lajes, na ilha Terceira, entre militares e suas famílias», como refere Steinhardt.

 

4. Património hebraico nos Açores

 

Pico Salomão

Quem chega hoje ao aeroporto de Ponta Delgada e segue pela estrada para o centro da cidade, encontra à sua esquerda, lá no alto, um bairro de vivendas, conhecido por “Pico do Salomão”. Foi construído por Elias Bensaúde, avô dos atuais proprietários, que ali têm as suas residências açorianas.
O construtor deu-lhe o nome de Salomão Bensaúde, patriarca da família.

 

Torás de Mimon Abohbot

Foto retirada do blog Canal C

Segundo Steinhardt, a 8 de maio de 1997, um estranho evento ocorreu na aldeia de pescadores de Rabo de Peixe, na costa norte da ilha de São Miguel.
Nesse dia, dois rapazes locais, brincando entre as rochas, entraram numa gruta escura e tropeçaram num grande saco de plástico.
Abrindo-o, encontraram uma Torá. Eles não sabiam o que era. Tiraram-lhe o “vestido”, queimaram o pergaminho com fósforos, venderam pedaços com aquelas “letras estranhas” a oportunistas da aldeia e, no dia seguinte, levaram alguns para a escola. O professor de religião reconheceu logo que era hebraico. Uma professora teve a feliz iniciativa de ir com eles buscar os destroços que ficaram na gruta. Tudo foi entregue na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Especialistas de Lisboa identificaram o rolo como uma Torá, e uma amostra foi enviada à Universidade Hebraica de Jerusalém, onde professores determinaram que se tratava de uma Torá escrita em Marrocos, por volta de 1700.

Entregue o objeto aos cuidados dos especialistas do Departamento de Restauro da Biblioteca Nacional de Lisboa, estes, com a ajuda do rabino da sinagoga de Lisboa, conseguiram restaurar o pergaminho, deixando em branco os espaços que ainda faltam e que não foram devolvidos pelos “investidores” que os haviam comprado aos meninos achadores. Era, portanto, um Sefer Torá de Marrocos, do século XVIII, e não, como inicialmente houve quem supusesse, anterior à Inquisição em Portugal. Um pormenor escapou, porém, aos investigadores: o manto de veludo azul, com franjas douradas que cobria o achado na gruta estava costurado à máquina. E no século XVIII ainda não havia máquinas de costura. Além disso, a Torá era sefardita, marroquina, e o manto estava confecionado em modelo asquenazi. A não ser que se verifique muita coincidência, estamos perante a Torá de Mimon Abohbot, encaixotada em Angra do Heroísmo para embarcar para Mogador, entregue ao capitão americano em Porto Judeu e desaparecida misteriosamente da base aérea das Lajes.

Já a segunda Torá foi adquirida em 2009 pelo Museu de Angra do Heroísmo, em Londres, segundo noticia a edição de 7 de outubro de 2009 do Açoriano Oriental.

 

Café Mascote

O que em tempos foi uma casa de lotarias, hoje o Mascote evoluiu e ampliou os seus serviços na área da restauração e é um dos cafés mais antigos de Ponta Delgada.

Segundo José Farias, proprietário do Café Mascote, em entrevista ao Diário dos Açores, «a Mascote foi um projeto de um judeu que veio para Ponta Delgada nos anos 40 para fugir às guerras da altura. Aliás, foi este mesmo rabino, José Albo, que também abriu a Sinagoga na Rua do Brum, em Ponta Delgada, hoje denominada Sahar Hassamain. Esta informação foi-me revelada pelo historiador José de Almeida Mello».

 

Cemitérios

Cemitério dos Hebreus de Angra. Aqui encontra-se sepultado Mimom ben Abraham Abohbot, fundador da Sinagoga Ets Haim em Angra (Terceira). Foto: Angrense

Mas são os cemitérios e sinagogas os mais importantes legados patrimoniais.

Por onde passaram, os judeus tiveram a preocupação de criar duas instituições: primeiro um cemitério, depois uma sinagoga. Isso envolvia, naturalmente, uma organização comunitária que os unia. A primeira preocupação era sempre a aquisição de um terreno, para servir de cemitério para a comunidade. Só depois vinha a criação de lugares de culto, as sinagogas. A razão reside no facto de que a única exigência para a realização de atos de culto é a participação de dez correligionários varões. O local pode ser qualquer dependência numa casa particular, não necessita de um templo. Mas o terreno sagrado para a sepultura é imprescindível, porque aos judeus não é permitido fazer transladações. As campas são sempre perpétuas. Os judeus dos Açores não foram exceção. Existiram cemitérios judaicos na Terceira (1832), S. Miguel (1834), Faial (1852) e S. Jorge (?). Existem todos ainda hoje porque os descendentes da família Bensaúde, embora muitos já não sigam a religião judaica, assumem em memória dos seus antepassados os custos da manutenção desses campos sagrados.

Cemitério Hebraico – Campo da Saudade

Foto: Carlos Luis M C da Cruz

Segundo o site Visit Ponta Delgada, o Cemitério Hebraico – Campo da Saudade, foi criado em 1834, tal como regista o livro de escrituras da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Contudo, existem registos de pedras tumulares anteriores a 1834, nomeadamente uma, com data de 1826 e que se refere a Jacob Bensaude, razão pelo qual sabe-se que, aquela área era já utilizada para enterros da comunidade judaica residente em São Miguel antes do seu registo.

O Cemitério Hebraico conta com cerca de 160 pedras tumulares, dispostas de forma desalinhada e sem agrupamento cronológico e familiar. Destaque para o caso excecional das cinzas de Erna Friedman, esposa do Dr. Friedman, falecida em Lisboa e que por seu desejo quis repousar eternamente em Ponta Delgada.

 

Sinagogas

Edifício onde outrora funcionou a Sinagoga de Ets Haim de Angra. A Sinagoga foi fundada na segunda metade do século XIX no centro histórico de Angra. A história deste templo está ligada à vida e obra do comerciante judeu Mimom ben Abraham Abohbot, seu fundador. Foto retirado do blog Questom Judaica

Existiram pequenas sinagogas, em casas particulares, em Ponta Delgada (onde chegou a haver cinco sinagogas em residências particulares), em Angra do Heroísmo (Terceira), na Horta (Faial), e em Vila Franca do Campo (São Miguel), onde viviam apenas 20 judeus. Só uma foi instalada em edifício próprio, adquirido na cidade de Ponta Delgada, por um grupo de judeus liderados por Abraão Bensaúde, do qual faziam parte também seu irmão Elias Bensaúde, seu cunhado Isaac Zafrani, seu primo Salomão Bensaúde, Salom Buzaglo, José Azulai, e Fortunato Abecassis. Outras famílias conhecidas eram os Aflalo, os Benayun, os Sebag e os Delmar.
A comunidade judaica de Ponta Delgada foi, sem dúvida, a mais importante dos Açores. Embora não existam dados exatos, estima-se em cerca de 150 indivíduos o número dos seus membros.

Todas as referidas sinagogas desapareceram, com exceção da existente na Rua do Brum, 16, em Ponta Delgada.

 

5. Sinagoga Sahar Hassamain de Ponta Delgada (Museu Hebraico dos Açores)

O facto de a Sinagoga se encontrar no interior de um edifício, uma das características mais marcantes, já que isso não acontece com outras sinagogas em Portugal, faz deste espaço um local único.
Foto: Carlos Luís M C da Cruz

A Sinagoga de Ponta Delgada chama-se Sahar Hassamain, que significa Força dos Céus e foi fundada em 1836, o que faz dela a mais antiga sinagoga portuguesa construída após a expulsão dos judeus do país. Foi fundada por Abraão Bensaúde, seu irmão Elias Bensaúde, seu cunhado Isacc Zafranv, seu primo Salomão Bensaúde, Salom Buzaglo, José Azulav e Fortunato Abecassis.

A Sinagoga de Ponta Delgada está instalada numa antiga casa de moradia da cidade, a qual foi adaptada à sua nova função. No primeiro andar, designado por andar nobre, foi construída uma sala em forma retangular, de grandes dimensões, e no segundo andar um outro espaço, com abertura para o anterior compartimento, de menor dimensão.

Foto: Câmara Municipal de Ponta Delgada

O facto de a Sinagoga se encontrar no interior de um edifício, uma das características mais marcantes, já que isso não acontece com outras sinagogas em Portugal, faz deste espaço um local único.

No século XX, até à década de 1950, o edifício, na parte de moradia, foi habitado pela família Sebag. Com a ausência de fieis na ilha, nunca mais se realizaram ofícios religiosos na sinagoga, vindo o edifício a entrar em processo de degradação.

Ao final da década de 1990 Jorge Delmar, Luís Bensaúde e Eduardo Oliveira lavraram um acordo de cedência do edifício à Comunidade Israelita de Lisboa que, por sua vez o cedeu à Câmara Municipal de Ponta Delgada, pelo prazo de 99 anos, a fim de ser restaurado e musealizado o espaço de culto. No contexto das comemorações dos 190 anos da chegada dos primeiros judeus aos Açores, desde março de 2009, esteve temporariamente aberta aos sábados para visitas guiadas.

Em 2010 foram encontrados objetos de culto, documentos manuscritos e impressos que constituem um valioso espólio sobre a história da comunidade.

Foto: DR

As instalações da antiga sinagoga foram cedidas pela Comunidade Israelita de Lisboa à Câmara Municipal de Ponta Delgada que procedeu à recuperação do imóvel, visando a sua requalificação como museu e a dinamização do seu espaço para fins culturais e de turismo.

Após a conclusão das obras, o edifício foi reaberto ao público no dia 23 de abril de 2015,dia de Yom HaAtzmaut, só possível graças ao esforço da comunidade açoriana e das comunidades portuguesa e judaica dos EUA e da Europa. A sinagoga foi transformada em museu e arquivo da memória judaica nos Açores, tendo recebido 6.036 visitantes em 2018.

Visite-a também!

Rua do Brum nº16

9500-036 Ponta Delgada

Horário de visita: dias úteis 13h00 às 16h30 (sujeito a alteração).

Telefone: (+351) 296 304 400

 

Fontes:

«TERCEIRA – A CHEGADA DOS JUDEUS», de Francisco Miguel Nogueira (Jornal da Praia, 24 de novembro de 2017). Acedido no dia 29 de agosto de 2019, em  http://www.jornaldapraia.com/noticias/ver.php?id=2427

«O último judeu dos Açores», de Inácio Steinhardt (Universidade Federal de Rio Grande do Sul). Acedido no dia 29 de agosto de 2019, em https://seer.ufrgs.br/webmosaica/article/viewFile/43104/27206

1VIEIRA, Luísa Mota. Apelidos, genes e consanguinidade na população açoriana. In: III Aniversário do site Adiaspora.com. Encontro – Planejando Estratégias de Sobrevivência Cultural Toronto, 2005. Disponível em: http://www. adiaspora.com/_images/_article/_events/2005/3rd_ Anniversary/LuisaMotaVieira-AdiasporaJan2005.pdf. Acedido por Steinhardt a 20 jun. 2013.

«História da presença judaica nos Açores», de Inácio Steinhardt. Acedido no dia 29 de agosto de 2019, em https://journals.openedition.org/lerhistoria/646

«Bensaúde em São Miguel: primeiros judeus nos Açores», de Rita Roby Gonçalves (Diário de Notícias, 26 de abril de 2009). Acedido no dia 29 de agosto de 2019, em https://www.dn.pt/gente/interior/bensaude-em-sao-miguel-primeiro-judeus-nos-acores-1212876.html

Sinagoga Sahar Hassamain de Ponta Delgada, de José de Almeida Mello (Publiçor, 2009).

«Café Mascote incluído no roteiro turístico judaico dos Açores» (Diário dos Açores, 24 de outubro de 2016). Acedido no dia 30 de agosto de 2019, em http://www.diariodosacores.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=7216:cafe-mascote-incluido-no-roteiro-turistico-judaico-dos-acores&catid=36&Itemid=116

Cemitério Hebraico – Campo da Saudade – Freguesia de Santa Clara: http://www.visitpontadelgada.pt/pages/830/?geo_article_id=2775

Açores – http://questomjudaica.blogspot.com/2013/10/acores.html

 

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