Gualter Rainha: «Pretendo que as pessoas aprendam a cozinhar vegetariano por ser saudável, e por ser igualmente essencial para a diminuição da pegada ecológica»

Gualter Rainha: «Pretendo que as pessoas aprendam a cozinhar vegetariano por ser saudável, e por ser igualmente essencial para a diminuição da pegada ecológica»

Gualter Rainha, da Cozinha de Sentidos, irá lançar o seu primeiro livro Comer Vegetariano Durante uma Semana – Desafio De Cozinha de Sentidos, editado pela Letras Lavadas.

Nesta entrevista, Gualter Rainha revela-nos um pouco mais sobre este novo desafio, as razões que o levaram a adotar uma dieta vegetariana, os seus projetos presentes e futuros e ainda partilha duas receitas deliciosas que se encontram no seu livro.

 

1 – Irá lançar agora o seu livro Comer Vegetariano Durante Uma Semana, em que pretende desafiar as pessoas a experimentar comida vegetariana por uma semana, pelo menos. O que pretende com este livro e porquê agora esta iniciativa?

Com o lançamento do meu primeiro livro, pretendo expor o lado divertido e colorido associado à alimentação vegetariana, e com isso mostrar aos leitores que é bastante fácil preparar uma refeição vegetariana, e que é acessível a todo o tipo de bolsos no que respeita aos custos dos ingredientes.
Durante o desafio, os leitores terão acesso a bases ligadas à dieta vegetariana, de acordo com as minhas sugestões, permitindo que posteriormente consigam fazer adaptações e seguir a dieta 100 % vegetal de forma autónoma, caso faça sentido, ou com o apoio do livro.
Atualmente, há inúmeras pessoas que têm vontade de seguir a dieta vegetariana, seja por razões ecológicas, por motivos de saúde e/ou causas éticas, e o livro vai também ao encontro disso.

 

2 – Há cada vez mais pessoas a aderir ao vegetarianismo, mas também ao veganismo. No entanto, ainda existem alguns mitos e entraves à comida 100% vegetal. Pode enumerar e desmistificar alguns? Porque deveremos diminuir o consumo de produtos de origem animal e consumir mais produtos de origem vegetal?

No meu entender, hoje em dia, com a facilidade de acesso à informação, esses mitos ou tabus já não fazem tanto sentido, e as pessoas estão cada vez mais despertas a fazerem alterações nos seus hábitos alimentares pelas razões que lhes são importantes.
Alguns dos mitos que poderão existir referem-se à ideia de que os vegetarianos comem sobretudo à base de saladas, ou que a comida não tem muito sabor. Os mais céticos apontam que não é saudável comer vegetariano pela carência nutricional, uma vez que não se consome qualquer tipo de carne e derivados de origem animal. Existe, por exemplo, o mito de que esta forma de alimentação é dispendiosa e composta por produtos desconhecidos. Quem seguir as receitas do livro e aceitar o desafio, perceberá que não existem entraves, mas também dependerá do objetivo de cada leitor perante o que o fez adquirir o livro.
No que respeita à diminuição do consumo de produtos de origem animal e ao aumento pela preferência de produtos de origem vegetal, eu destaco a saúde por razões óbvias. Qualquer dieta em que excedemos o essencial deixa de ser saudável. Mas é também conhecido que os produtos de origem animal são muito mais calóricos e com muito mais gorduras saturadas do que os produtos de origem vegetal, o que compromete de forma negativa a saúde cardiovascular.
A dieta 100 % vegetal é recomendada pela Organização Mundial da Saúde e pela Direção – Geral da Saúde, por ser saudável e ser possível a sua adoção em qualquer etapa da vida, desde que feita de forma equilibrada e consciente.

 

3 – Segue uma dieta vegetariana há sensivelmente seis anos. O que o levou a adotá-la?

No meu caso, o que me levou a adotar a dieta vegetariana foram as razões éticas. Eu decidi ser íntegro com a minha opinião acerca das indústrias que estão envolvidas na exploração animal. Sempre nutri sentimentos por qualquer animal, independentemente da espécie. É claro que a adaptação foi consciente e gradual, e sempre tive presente os fatores saúde e ecologia associados.

 

4 – Iniciou o projeto “Cozinha de Sentidos” em 2017, em que além de do bloque, realiza workshops e showcookings. O que o motivou a enveredar por este caminho, visto que a cozinha não é a sua profissão?

O que me motivou a seguir este caminho foi sobretudo sentir que enquanto cidadão é fundamental ter uma voz ativa e que é muito importante a nossa partilha pessoal. Cabe a nós zelar por um amanhã e por um futuro melhores, e nesse sentido, com o meu projeto, pretendo que as pessoas aprendam a cozinhar vegetariano por ser saudável, e por ser igualmente essencial para a diminuição da pegada ecológica.
É também através do meu projeto que tenho a oportunidade de partilhar a minha paixão pela cozinha, através das redes sociais e/ou eventos que realizo.

 

5 – Além do projeto acima referido, tem ainda um programa de culinária, o “Cozinha em Casa”, inserido no Açores Hoje, emitido pela RTP Açores. Como surgiu esta oportunidade? Sente-se bem em frente às câmaras?

A rubrica “Cozinha em Casa”, inserida no programa “Açores Hoje”, surgiu após uma entrevista realizada pela jornalista Solange Vieira durante o decorrer de um Workshop, em Vila Franca do Campo. O Programa “Açores Hoje” é bastante informativo, com cariz cultural e contemporâneo, e apoia projetos como o meu. Eu sou-lhes imensamente grato pela oportunidade.
Desde pequeno, a minha relação com as câmaras nunca foi a melhor. Sempre que podia escapulia-me, mas, como tudo na vida, devemos abraçar os desafios e superarmo-nos. É importante aproveitarmos tudo o que seja bom e positivo para crescermos com as experiências e as oportunidades que vão surgindo nas nossas vidas. A equipa do “Açores Hoje” foi importante para que hoje em dia seja bem mais fácil encarar uma câmara.

 

6 – Quando se pensa em produtos regionais de grande qualidade, vem-nos sempre à cabeça a carne de vaca, os laticínios, o peixe e o marisco. No âmbito vegetal, que tesouros guarda a nossa Região e que todos os açorianos deveriam ter na sua cozinha?

Todos os açorianos têm acesso diário a tesouros vindos das terras. Temos imensos produtores locais a produzir com qualidade, e os legumes e os vegetais devem ser vistos como elementos principais e importantes nas refeições, uma vez que mais de metade do prato deverá ser composto por legumes, hortaliças, tubérculos ou cereais.
Respeito muito a cultura, mas isso não significa que não me possa adaptar à atualidade e utilizar uma malagueta e os alhos regionais para fazer um excelente bife de seitan à regional, que é uma  proteína alternativa pertencente ao reino vegetal. Eu consigo desfrutar de sabores familiares, mas com proteínas alternativas.

 

7 – Qual ou quais as suas receitas preferidas do seu livro e que acha que irão fazer o maior sucesso junto do público não-vegetariano?

A minha receita preferida do livro são as pataniscas vegetarianas, e creio que será uma das receitas preferidas dos leitores em geral. Mas também gosto muito dos bifes de seitan à regional e dos pratos com massa, como, por exemplo, os pesto de tremoço gratinado. No geral, adoro todas as receitas, mas estas são as que mais gosto.

 

8 – Tem mais algum projeto em mente que queira e possa partilhar connosco?

Sou atento às oportunidades, e tento ser íntegro com o que sinto no momento. Acredito que mais projetos surjam “do momento”, por inspiração. Eu adoro a natureza, e deixo-me inspirar nos meus passeios.
Não é novidade que, de futuro, quero abrir um espaço de restauração com a oferta de opções 100% vegetais, para que seja possível partilhar a minha paixão diariamente através da comida.
Adoro o conceito de cuidar cada prato de forma aprimorada e singular. Cada cliente é um cliente e todos devem receber essa atenção.
Atualmente, é complicado avançar com o restaurante devido à pandemia. No entanto, no futuro, terei de ver as ofertas de mercado e avaliar os seus valores. Eu sou apologista dos passos pequenos e confiantes, e que devemos viver um dia de cada vez. Os sonhos têm de estar presentes e vivos, e devem ser o farol que nos guia.
A cozinha pode expressar muito de nós numa refeição, e, como sempre digo, partilhem a cozinha mais vezes com os que mais gostam, e sejam felizes.

 

Seguem duas receitas que se encontram no livro:

 

Bifes de seitan à regional

(Serve 4 pessoas) – Tempo de preparação: 25 minutos – muito fácil

Ingredientes

• 600 g de seitan
• 8 dentes de alho
• 2 folhas de louro
• 2 malaguetas de curtume em vinagre
• 2 c. de sopa de calda de pimenta
• 3 c. de sopa de manteiga vegetal
• Fio de azeite
• Sal q.b.
• 150 ml de aguardente ou vinho branco

Preparação

1. Comece por lavar e cortar o seitan em porções de 150 g. Seque-o bem com um guardanapo de papel.
2. Aqueça um fio de azeite com o louro e um dente alho amassado com casca. De seguida, frite o seitan até alourar de ambos os lados. Reserve.
3. Amasse os restantes dentes de alho com a casca e adicione-os ao azeite da fritura do seitan. Acrescente a calda de pimenta e a malaguetas de curtume às tiras, e deixe que os alhos cozinhem um pouco.
4. Junte a aguardente, ou o vinho, com manteiga vegetal, e deixe que o álcool evapore. Junte o seitan alourado, para que ganhe o sabor do molho.
Sirva os bifes de seitan à regional com arroz cozido ou com batata frita.
Pode acompanhar com salada colorida ou uma sopa de espinafre.
Notas: Caso não tenha a calda de pimenta, substitua por massa de pimentão. No caso de não ter a pimenta de curtume, utilize tiras de pimentão, apenas tem de as deixar cozinhar um pouco.

 

Tarte de abóbora

(Serve 10) – Tempo de preparação: 50 minutos – fácil

Ingredientes

• 500 g de abóbora cozida
• 490 g de leite condensado de coco (utilizei Koala)
• 8 c. de sopa de farinha de arroz
• 1 c de chá de canela em pó
• Pitada de cravinho em pó
• 1 c. de café de extrato de baunilha
• Raspa de meia laranja
• 6 folhas de massa filo (pode substituir por outro tipo de massa)
• Azeite para pincelar a massa filo q.b.

Preparação

1. Comece por limpar e cortar a abóbora, e leve-a a cozinhar. Depois de cozida deixe-a escorrer muito bem.
2. Junte todos os ingredientes no liquidificador e triture-os até que consiga um creme bem liso. Transfira o creme para uma panela e cozinhe em fogo baixo até engrossar.
3. Pincele cada folha de massa filo com azeite, e forra uma tarteira com a parte da massa pincelada com o azeite para fora. Ajuste-as bem à forma, e repita o processo até terminar as folhas de massa filo.
4. Transfira o creme ligeiramente mais frio para a tarteira forrada de massa filo, e leve a cozer no forno pré-aquecido a 180˚C durante sensivelmente 40 minutos.
5. Deixe arrefecer e polvilhe com açúcar de confeiteiro. Sirva.

 

Poderá adquirir o livro Comer Vegetariano Durante uma Semana – Desafio De Cozinha de Sentidos, de Gualter Rainha, na Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, ou na loja online, aqui!

 

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Ana Oliveira
Redatora e gestora de conteúdos da Agenda Açores

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