Alexandre Borges: «A poesia deve reclamar de volta o papel de sedução, de comunicação imediata com o seu auditório»

Alexandre Borges: «A poesia deve reclamar de volta o papel de sedução, de comunicação imediata com o seu auditório»

A Agenda Açores entrevistou Alexandre Borges, conhecido pelo seu trabalho como escritor de livros de diversas temáticas, mas também como cronista, crítico de cinema, argumentista e produtor. Lançou recentemente o seu livro de poesia Atenção ao Intervalo Entre o Caos e o Comboio (N9na Poesia).

Alexandre Borges lançou no passado dia 12 de março o seu mais recente livro, de poesia, Atenção ao Intervalo Entre o Caos e o Comboio, pelo editor da N9na Poesia, Henrique Levy, e o crítico literário Vamberto Freitas, em formato online, que contou, também, com declamações de alguns dos seus poemas. Fica a saber mais sobre este livro existencialista, os projetos atuais e futuros do autor e a influência da Filosofia e do professor Mário Cabral na sua escrita.

1 – É licenciado em Filosofia e é mestre em Estética e Filosofia da Arte. Quando lhe surgiu o gosto pela filosofia e de que forma a mãe de todas as ciências influencia a sua carreira como escritor?

Na realidade, não cheguei a mestre, com muita pena. Há uma nota biográfica na net a dizer isso que, depois, foi reproduzida por outras, mas a verdade é que abandonei o mestrado. À época, eram quatro anos (e nisto, de repente, devo soar muito antigo), um compromisso de tempo enorme, e havia solicitações profissionais mais sedutoras da televisão ou dos jornais. Mas, como me disse então, sabiamente, um professor: “o trabalho faz muito bem aos mestrados”. Um dia, hei-de voltar e fazê-lo e ser, enfim, cinturão negro na coisa.

O gosto pela Filosofia apareceu aos 17 anos e foi, verdadeiramente, uma epifania. Estava à beira da primeira idade decisiva das nossas vidas e não sabia o que fazer. A verdade é que já então queria ser escritor e me sentia como tal, mas não há nenhum curso para isso – felizmente. Pensei que queria tirar Sociologia porque o Miguel Esteves Cardoso se tinha formado em Sociologia em Inglaterra, com 20 valores, e eu, como tantos miúdos aspirantes a escribas dos anos 90, queria ser como ele. Felizmente, percebi a tempo que uma coisa nada tinha a ver com a outra. Um professor importante, bons amigos, a perspectiva de passear a pinta de intelectual pessimista vestido de preto pelos corredores da Faculdade de Letras e de assim tentar impressionar moças igualmente intelectuais deprimidas, tudo isso acabou por me levar lá. E foi a escolha certa. Tirando uns breves meses em que dei explicações, nunca trabalhei em Filosofia, mas a Filosofia esteve e está em tudo o que fiz e faço. Ajuda-nos a pensar como talvez nenhum outro curso. A pensar, a ler, a observar, a desconstruir – tudo ferramentas fundamentais para um escritor.

2 – Lançou recentemente Atenção ao Intervalo Entre o Caos e o Comboio, o seu segundo livro de poesia, após Heartbreak Hotel, lançado em 2005. Passaram-se muitos anos entre um e outro. Porquê agora um livro de poesia?

Passaram, sem dúvida – e o pior é que só recentemente me apercebi disso. A vida passa muito depressa e é indiferente ao facto de termos ou não encontrado a nossa voz, seja como escritores, como músicos, carpinteiros, cientistas, como homens e mulheres, como tudo. O trabalho como escritor profissional, por assim dizer, como guionista e cronista, ocupa-nos muitas vezes todo o espaço, como árvores enormes que não deixam as outras crescer. A poesia tem um tempo próprio, que é constantemente ultrapassado pelo contrarrelógio dos prazos de entrega de textos e guiões – é uma luta inglória. Nos últimos anos, porém, forcei-me a dar-lhe esse espaço e esse tempo – e uma nova voz acabou por aparecer. Em 2005, achava a poesia mais próxima da fotografia – devia captar o instante –; hoje, entendo que está mais próxima da música. Não é feita só para ser lida, mas também para ser dita. Emociona pelo que diz, mas também como diz. Com ritmos, repetições, aliterações, rimas internas, mudanças de velocidade. Enquanto escrevia o livro, ia testando muitos poemas ao vivo ou em vídeo. Lia-os em voz alta, procurava perceber a reacção das pessoas e ia-los retrabalhando, aprimorando. Creio que a poesia também deve reclamar de volta esse papel de sedução, de comunicação imediata com o seu auditório. Deve fazer pensar, mas deve arrepiar, embalar, embriagar. Em 2021, ninguém lê mais do que meia dúzia de linhas numa rede social, mas o poder da poesia dita, em palco ou em vídeo, parece-me não só incólume como rejuvenescido.

3 – O seu livro tem um título muito sui generis. Vamberto Freitas, o grande crítico literário da nossa terra, interpreta o título do livro «como uma tirada filosófica e empírica sobre as vidas que levamos e a agonia dos nossos dias, precisamente a incerteza do que significamos num abalado mundo, e o comboio que anda sem direto ou em curvas mas sem deixar de chegar ao seu destino». O que acha desta interpretação de Vamberto Freitas? Porquê este título?

É uma interpretação muito acertada. Há uma estação de metro em Lisboa, cidade em que vivo, onde se repete um aviso em loop que diz: “Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. É uma chamada de atenção para o facto de ficar um pequeníssimo espaço entre a plataforma e as portas da carruagem e o palavroso equivalente português ao enxuto britânico “mind the gap”. Um dia, por miopia minha ou falha do placard electrónico, pareceu-me ler “Atenção ao intervalo entre o caos e o comboio”. Já estava a escrever o livro e soube, imediatamente, que aquele seria o título. Era a metáfora perfeita para a dualidade que nos esmaga: por um lado, o caos anárquico da vida, sem mapa ou já referências, mas com tantas solicitações que, frequentemente, nos paralisa; por outro, a constância mecânica de relógios, horários, comboios, rotinas, a que temos de responder cega e permanentemente. A vida inteira pode passar assim, se não tivermos atenção. É entre uma coisa e outra, o caos e o comboio, a incerteza e a razão mecânica, que existe uma pequena brecha que abre a possibilidade da perplexidade ou do deslumbre. E, quanto a mim, é aí que nasce a poesia.

4 – O filósofo Immanuel Kant é uma espécie de centro temático deste livro, sendo inclusive, referenciado em dois poemas, Lampe e O Corte de Cabelo de Kant. Kant era conhecido por ter um estilo de vida muito regulado, com as rotinas bem definidas, basicamente a antítese do caos. Neste livro, contrapõe o principal filósofo da era moderna consecutivamente. Será que poderemos considerar este Atenção ao Intervalo Entre o Caos e o Comboio uma ‘ode’ à desordem e à arbitrariedade da vida?

Kant é um dos pensadores mais influentes da História e, no entanto, nunca saiu da sua pequena cidade de Königsberg, hoje Kaliningrado. Nunca casou, foi um discreto professor universitário e, porém, escreveu, entre outros, os fundamentos daquelas que viriam as primeiras constituições francesas após a Revolução, e, portanto, das leis fundamentais de toda a sociedade contemporânea ocidental. Diverte-me a ideia de que alguém tão grande pudesse ter uma vida tão banal, tão solitária e, provavelmente, passar tão despercebido, por exemplo, ao seu criado Lampe. Atenção ao Intervalo entre o Caos e o Comboio é mais, talvez, uma ode a essa ironia. Estamos destinados a grandes feitos e a coisas muito pequeninas – e, às vezes, ninguém dá pela diferença. É preciso estarmos atentos ao extraordinário, porque ele está quase sempre a acontecer. 

5 – Os poemas deste livro debruçam-se, essencialmente sobre a condição humana, as ironias e dramas da vida contemporânea, o vazio existencial, a banalidade dos dias, a morte, o amor não consumado, o absurdo e arbitrariedade da vida, Deus e a ânsia de quebrar a menoridade humana. O Alexandre assume, sem pudores, que é pessimista e que não tem grande fé na Humanidade. Podemos considerar Atenção ao Intervalo Entre o Caos e o Comboio uma obra existencialista?

Tenho dado respostas longas, mas, neste caso, creio que a resposta completa é: sim, podemos.

6 – Dedica este livro ao ‘Mário’. Esse Mário seria o filósofo e escritor terceirense Mário Cabral, falecido em 2017, por si considerado uma das vozes mais singulares da literatura portuguesa?

Exactamente. O Mário foi meu professor de Filosofia e, depois disso, um querido amigo durante 20 anos. Além de tudo o mais, foi um grande escritor e um mestre pessoal. Morreu durante a escrita deste livro e não podia senão dedicar-lho. Ao Mário, devo, entre outras coisas, a lucidez cruel de me ter arrasado os poemas da adolescência e de me ter encaminhado para os grandes poetas, em vez de canções pop foleiras: Herberto Hélder, Fiama Hasse Pais Brandão, António Franco Alexandre, Al Berto, Sophia. A sua morte, que me apanhou na Terceira, e subsequentes cerimónias fúnebres tiveram um impacto inevitável no que estava a escrever então. Três dos poemas do livro estão-lhe explicitamente relacionados (“Certamente um Homem”, “Relativamente à Gravidade” e “Correspondência”) e muitos dos outros acabaram por ser indirectamente afectados por esses acontecimentos. O livro, que estava até então a seguir um caminho mais ligeiro, irónico e musical, com a morte do Mário, teve de se reorientar para assuntos mais eternos: a morte, o regresso às raízes, o absurdo da existência. Ou melhor: talvez tenha seguido exactamente na mesma direcção, mas com muito mais peso, mais lastro, voando a mais baixa altitude.  Era impossível não ser assim.

7 – É escritor, argumentista, jornalista, guionista, crítico de cinema, produtor, ou seja, trabalho não lhe falta! Em que projetos se encontra atualmente? E que projetos tem idealizado para o futuro?

No cartão que a agência para quem trabalho me obriga a ter, só diz “escritor” – tudo o mais são variantes do mesmo bicho. Acabei de escrever uma peça de teatro que vamos estrear em Maio, logo após a reabertura das salas. O plural neste caso aplica-se à Companhia de Actores, de que tenho o gosto de fazer parte. Chama-se “Instruções para uma Vida Normal” e procura responder a uma questão que surgiu nestes estranhos tempos que vivemos: porque é que o toque é tão importante? Porque é que nos faz tanta falta tocar, abraçar? Vai estar em cena no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço, em Algés. Em paralelo, estou com a Companhia das Ilhas (isto são só “Companhias” – e muito boas) e a família a preparar, precisamente, a publicação das obras completas de Mário Cabral – esperamos ter o primeiro volume pronto em breve. Há ainda aí dois documentários na manga e as primeiras linhas de um novo romance. O primeiro saiu há 12 anos – vamos ver se consigo um interregno menos épico do que o da poesia.

 

Ana Oliveira
Redatora e Gestora de Conteúdos da Agenda Açores

 

Foto: DR

 

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