10 coisas que não sabias sobre o Cão de Fila de São Miguel! – Top Azores

10 coisas que não sabias sobre o Cão de Fila de São Miguel! – Top Azores

No dia 26 de agosto celebra-se o Dia Mundial do Cão, e este artigo Top Azores dá-te a conhecer 10 coisas que não sabias sobre o Cão de Fila de São Miguel, uma raça canídea autóctone dos Açores!

 

Originário do arquipélago dos Açores, mais concretamente da ilha de São Miguel, o cão de Fila de São Miguel, ou “cão das vacas”, como é popularmente conhecido, é uma raça autóctone portuguesa, parte integrante do Património Histórico, Natural e Cultural de Portugal e é uma raça reconhecida oficialmente pelo Clube Português de Canicultura e pela Federação Cinológica Internacional. Fica então com algumas curiosidades sobre o Cão de Fila de São Miguel, retiradas do livro O Cão de Fila de São Miguel – Património dos Açores, de Tiago Vieira Andrade (edição Letras Lavadas). Poderás adquirir o livro aqui!

1. Não há certezas quanto aos seus antepassados

Os cães chegaram aos Açores no século XVI, pouco depois das suas descobertas. A sua razão de ser estava na abundância de gado que havia nas ilhas, impossibilitando aos criadores de gado guardarem-no e vigiarem-no convenientemente.

Os cães que vieram com os primeiros povoadores, os portugueses, ou outros povos que por estas ilhas passaram posteriormente, como os flamengos, franceses, espanhóis ou ingleses, e que perfilaram com as raças primárias na origem das raças açorianas, foram o Dogue de Bordeaux, o Mastiff e o Bulldog, o podengo e o galgo, os de caça e os rafeiros, os perdigueiros ingleses, os cães de coelhos, os da Madeira e os das Canárias e, ainda, os atravessados de Fila e Podengos, e os de Fila. Benito Ruiz em El Fila de San Miguel, indica que os primeiros cães de presa levados para os Açores estavam aparentados com os alãos, na altura muito comuns no Alentejo e Algarve.

O alão seria um dos antepassados do Cão de Fila de São Miguel. Foto: Fenrunna

Por sua vez, António Amaral e Vítor Veiga, autores de O Cão de Fila de S. Miguel, são também apologistas de que a raça se formou sobretudo a partir de alões ibéricos e dos mastins. É desta maneira frequentemente apontado que os cães que terão dado origem ao cão de Fila de São Miguel vieram sobretudo da Península Ibérica, não se pondo de parte, no entanto, as hipóteses de ao longo da sua formação, como é o caso dos cães de gado holandeses, os Griffon, trazidos pelos flamengos, serem também responsáveis pela sua genética.

No entanto, num estudo realizado no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, com a colaboração do Centro de Investigação em Recursos Naturais da Universidade dos Açores, conclui-se que o Cão de Fila de São Miguel tinha linhagens comuns na Europa, mas, ao que parece, exclusivas da raça, parecendo tratar-se duma variante regional. Certo é que o Fila não partilha linhagens com as raças continentais estudadas, sugerindo que o cão poderá descender de cães do norte da Europa, pelas linhagens comuns existentes, apesar de ser quase sempre sugerido que os canídeos que mais deverão ter contribuído para a sua formação terão vindo, sobretudo, da Península Ibérica, o que torna evidente que muito ainda teremos a aprender sobre as origens da raça açoriana.

A primeira e mais antiga referência ao cão de Fila de São Miguel é de meados do século XVI, da autoria do cronista Gaspar Frutuoso. No entanto, naquela época, a denominação de cão de fila representava um cão de guarda que também era utilizado na caça, não especificando a sua origem, como Fila de São Miguel ou Fila da Terceira, podendo ser um ou outro.

 

2. O apelido dado aos terceirenses ‘rabos tortos’ advém do Cão de Fila da Terceira

Foto retirada da página de Facebook Eu Sou da Ilha Terceira Açores.

Não se pode pode falar sobre as origens do cão de Fila de São Miguel sem falar no da Terceira, atualmente extinto, pois ambos têm muito provavelmente ascendentes comuns, tornando-se assim impossível de dissociar uma raça da outra. É factual que existiram efetivamente dois tipos de fila e que coexistiram paralelamente, um em São Miguel e outro na Terceira, pelo menos até meados do século XIX.

Em 1905, no Almanaque dos Açores, Leite Pacheco escrevia sobre uma raça existente na ilha Terceira – o cão de Fila da Terceira ou o Fila Terceirense, este com características que se podiam considerar semelhantes ao cão de Fila de São Miguel, crendo que o Fila da Terceira tivesse origem em cruzamentos experimentais com cães ordinários, com alguma propensão para a presa, referindo que teriam algum sangue de Bulldog. De focinho ou máscara negra, pelagem geralmente amarela em diferentes gradações, algumas vezes malhada de branco e por vezes de cor farrusca. A cauda apresentava uma tendência para tomar uma direção circular, o que fez com que o apelidassem de “rabos tortos”, termo popular que ainda hoje se aplica quando se fala dos habitantes da ilha Terceira.

Cão de Fila Brasileiro. Foto retirada de Portal do Dog

O cão de Fila da Terceira por ser mais pesado que o de São Miguel acabou por perder popularidade e interesse por parte dos criadores, fomentando-se a criação do cão de Fila de São Miguel, mais ligeiro, o que acabou por determinar a extinção do Fila Terceirense. Outra razão para a sua extinção, deve-se à forte emigração de terceirenses para o Brasil, levando os seus cães de fila para a outra margem do Atlântico, tanto que existe o Cão de Fila Brasileiro.

 

3. O Cão de Fila de São Miguel é um cão de pastor e de guarda

cão de fila de são miguel

O Cão de Fila de São Miguel é conhecido popularmente por “cão das vacas” por ser um bom aliado dos criadores de gado. Foto: Clube do Cão de Fila de São Miguel

Este molosso, tipo dogue, tem como principal função o controlo e a condução do gado. É um cão de pastor e de condução de gado, altamente especializado, podendo ser também designado como cão de guarda, destinado à proteção de pessoas e bens.

Os dados históricos desde a sua formação referem o cão de fila de São Miguel como um cão de trabalho, com intervenção na caça, no pastoreio e na guarda de rebanhos e bens, de modo que a sua seleção durante os séculos teve sempre por base as características funcionais, de aprendizagem e a enorme devoção e fidelidade com o dono, protegendo-o e criando com ele uma forte ligação emocional.

Capaz de permanecer ao relento durante todo o ano, guardando o gado e haveres dos agricultores e lavradores, a sua principal função foi desde sempre a condução de vacas leiteiras, nas quais morde baixo, de modo a não ferir-lhes as tetas. No caso de gado tresmalhado e disperso, pode morder mais alto, para assim o poder controlar.

 

4. O Cão de Fila tem um carácter forte e é conhecido por ser cão de um dono só

cão de fila de são miguel

Foto: Quinta do Chão da Casa Kennels

O cão de fila de São Miguel tem um temperamento muito forte e voluntarioso, podendo ser agressivo para com estranhos, mas ao mesmo tempo, extremamente dócil e fiel para com os seus.

Para António Amaral e Vítor Veiga, o Fila de São Miguel é cão de um só dono, devendo o seu ensino ser orientado por uma única pessoa e à base de recompensas, pois, devido ao seu forte temperamento, aceita mal os castigos.

 

5. Apesar da sua personalidade forte, o Cão de Fila pode ser um bom cão de família

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Gonçalo Uva feliz com o seu cão de fila de São Miguel. Foto: Instagram de Carolina Patrocínio

Raça de uma inteligência viva e aguçada, com grande facilidade em aprender, a força de carácter do Cão de Fila de São Miguel, aliada a uma desconfiança perante estranhos instintiva a todo o guarda por vocação, pode ser facilmente confundida com agressividade, mas esconde uma índole meiga para com aqueles com quem lida de perto, sem no entanto deixar de ser um guardião tenaz e corajoso de quem o trata. A lealdade à sua família humana é extrema.

Com ainda mais ênfase dada a natureza dominante da raça, a educação e sociabilização dos cachorros deve serve feita desde o nascimento, expondo os animais gradualmente a novas situações e estímulos, de modo a potenciar o desenvolvimento de indivíduos equilibrados e aptos a conviver com seres humanos e outros animais.

Não é uma raça adequada a iniciantes, dada a sua natureza dominante, ainda mais potenciada pela sua pujança física e carácter vincadamente independente e autónomo.

Mesmo como animal de companhia, um Cão de Fila de São Miguel deve ter a oportunidade de ter uma tarefa a desempenhar. Um treino consciencioso é sempre um meio simples e eficaz de estreitar a relação entre a família humana e o animal, ao mesmo tempo que proporcionará exercício físico e mental necessários à formação e desenvolvimento de um animal bem equilibrado.

No entanto, dadas as características intrínsecas da raça, treinar um exemplar do Cão de Fila de São Miguel é uma tarefa que se pode demonstrar bastante desafiante para alguém que tenha pouca experiência com cães. Sendo uma raça muito inteligente e dominante, não responderá bem ao uso da força. Uma socialização plena é recomendada.

 

6. Características físicas

cão de fila de são miguel

Um belo exemplar de Cão de Fila de São Miguel macho. Foto: Clube do Cão de Fila de São Miguel

A altura varia nos machos entre os 50 e 60 cm e, nas fêmeas, entre os 48 e 58 cm. Em relação ao peso, este pode variar entre os 25 e 35 kg no caso dos machos, enquanto que nas fêmeas rondará segundo o estalão atual entre os 20 e os 30 kg. Tem a característica de ser um cão de médio porte, o que diferencia dos restantes cães de fila, geralmente de grande porte. O crânio deve ter uma forma quadrada, ser ligeiramente abaulado e a trufa deve ser larga e de cor preta. O chanfro deve ser retilíneo com um ligeiro arredondamento lateral e de comprimento pouco inferior ao do crânio. A boca deve ser bem rasgada com maxilares muito fortes e a dentição completa com articulação em tesoura, em torquês ou em pinça. Os olhos são ovais e expressivos,  ligeiramente encovados e de cor castanha. O pescoço deve ser direito, forte e de comprimento médio.

Relativamente ao tronco, este deverá apresentar-se robusto e bem musculado, com um peitoral amplo, peito largo e bem descido, com o dorso direito. O pelo ou pelagem é curto, liso e denso, de textura rude ligeiramente franjada na zona da cauda, de cor fulva, cinzento ou amarelo, nas tonalidades claro, escuro ou raiado, sendo possível apresentar uma marca branca na região frontal e peitoral, devendo, no entanto, ser sempre tigrado. Pode igualmente apresentar marcas brancas nas patas.

 

7. É muito inteligente e é um bom moço de recados

Este cão é tem um temperamento voluntarioso, no entanto é muito inteligente e, por consequência, detém uma grande facilidade de aprendizagem, estando apto a executar diversas tarefas.

Para além da função mais conhecida como o “guardador de vacas”, este cão foi utilizado no passado noutras tarefas de cariz mais doméstico, como na função de “cão de cesta” ou “cão de recados”.

Assim como o da fotografia, o Cão de Fila também era treinado como Cão de Recados. Foto retirada da página de Facebook História dos Açores

Sabe-se que nos Açores era comum e usual verem-se cães, entre os quais os de fila, a transportarem cestos de vimes nos caminhos e ruas das ilhas, sendo os relatos sobre os cães de recados uma constante da vida quotidiana do povo. Mas para isso, claro, o cão tinha de ser treinado desde tenra idade. Assim, o cão de fila de São Miguel foi habituado a ser utilizado como cão de recados, sendo enviado aos talhos e mercearias para ir buscar as encomendas desejadas pelos donos. O dono dava a ordem ao cão para ir a determinado local, fazendo-o levar uma cesta entre os dentes com a lista de compras. Ao chegar aos estabelecimentos comerciais, o lojista leria a lista de compras que se encontraria no interior da cesta, sendo depois colocados no seu interior os bens encomendados. E tudo de uma forma segura, sem praticamente risco de roubo, pois os filas não se deixariam roubar (pobre ladrão que tentasse…).

Para além de recados, estes cães eram igualmente utilizados para transportar refeições dos camponeses que iam trabalhar para longe das povoações. Estando o almoço preparado, este era colocado na cesta e entregue ao cão, que treinado para transportar entre os dentes a asa do cesto de vimes, levaria a comida ao seu dono, às vezes percorrendo muitos quilómetros para cumprir esta tarefa.

Além disso, no campo, os filas auxiliavam os camponeses guardando os seus pertences ou a conduzir pequenas carroças, em que se transportavam bens essenciais, como farinha de trigo e até crianças.

 

8. É um bom aliado das Forças de Segurança

cão de fila de são miguel

Foto: Clube do Cão de Fila de São Miguel

As suas características morfológicas e comportamentais fazem com que seja dotado de uma agilidade extraordinária, com força no ataque e capacidade de agarre, o que, aliado à inteligência e extrema obediência, conferem-lhe qualidades inigualáveis para a guarda, defesa e ataque controlado, tornando-o num cão militar de elevada superioridade, fazendo com que seja o único cão de raça portuguesa utilizado pelas nossas forças armadas e policiais e como valente soldado em missões de guarda e patrulha. Serve nas Forças Especiais e no Corpo de Fuzileiros Navais da Armada. É igualmente utilizado pela Polícia de Segurança Pública em ações de rua e manutenção da ordem pública e pela Guarda Nacional Republicana.

 

9. Esta raça é reconhecida pela Federação Cinológica Internacional desde 2007

cão de fila de são miguel

Foto: Clube do Cão de Fila de São Miguel

A 22 de fevereioro de 1984, a proposta de estalão feita por um grupo de trabalho constituído por António José Amaral (CPC nos Açores), Maria de Fátima Mendes Cabral (Direção dos Serviços Veterinários de Ponta Delgada e atual Presidente do Clube do Cão de Fila de São Miguel) e por Luís Mexia de Almeida (canicultor da raça), é apresentada e aprovada pelo Conselho Técnico do Clube Português de Canicultura, o que permitiu que em dezembro desse ano fosse aprovado por unanimidade, em Assembleia Geral, o estalão final do cão de fila de São Miguel, tendo sido oficializada a integração da raça açoriana no panorama das raças caninas portuguesas.

Porém, o seu reconhecimento internacional, só veio a ocorrer duas décadas depois, apesar de em 1995 a raça ter obtido, por parte do Comité Geral da Federação Cinológica Internacional (FCI), o seu reconhecimento provisório internacional.

No ano de 2005, iniciaram-se os trabalhos preparatórios do dossiê técnico a apresentar à FCI no âmbito do processo do reconhecimento definitivo do Cão de Fila de São Miguel, o que chegou no ano de 2007, em que, aprovado por unanimidade, este passou a ser uma raça conhecida e reconhecida pela Federação Cinológica Internacional.

 

10. Apesar de ilegal, há quem defenda a tradição de cortar a cauda e as orelhas e há razões para isso

cão de fila de são miguel

Cães de Fila de São Miguel com as suas orelhas e cauda preservadas. Foto: Cão de Fila de São Miguel & Cimarron Uruguayo Germany

Uma das características mais marcantes destes cães, é a tradição do corte de cauda e orelhas, uma tradição que já tem séculos. No entanto, esta prática é desde 1993, com o Decreto-Lei n.13/93, de 13 de abril, proibida, com vista à proteção dos animais de companhia. Apesar desta proibição, muitos proprietários de cães de fila em todo o mundo continuam com este procedimento.

As razões para se continuar com esta tradição prende-se com o facto de o cão de fila ainda ser usado como animal de trabalho, que trabalha e vive em pastagens e em explorações agrícolas. No caso dos Açores, o clima húmido inerente ao arquipélago é uma das razões apontadas para o corte das orelhas, pois ter as orelhas compridas predispõe o animal a doenças e problemas auditivos frequentes e, por vezes, a uma surdez prematura. O corte ajuda a que as orelhas fiquem eretas, facilitando a audição.

Outra razão apontada para corte, é o facto de as pastagens açorianas estarem rodeadas de silvados, silvas aguçadas que rasgam as orelhas e a cauda, causando danos irreparáveis ao animal.

Apesar disso, os defensores da prática sugerem que esta deva ser padronizada, sugerindo que o corte das orelhas deve ser feito em redondo, e que a cauda seja amputada ao nível da 2.ª ou 3.ª vértebras.

No entanto, atualmente, já são muito os exemplares sem qualquer corte e, com o crescente interesse de outros países pela raça, a questão vai perdendo relevância, uma vez que existe uma certa preferência para que o Fila dos Açores apresente a sua forma natural, tal como nasceu, sem cortes nem amputações.

 

Se queres saber mais informações acerca do Cão de Fila de São Miguel, poderás adquirir o livro O Cão de Fila de São Miguel – Património dos Açores, de Tiago Vieira Andrade (edição Letras Lavadas), aqui!

 

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